
              Em Seus Sonhos
              Robin Jones Gunn
             Srie Selena 2





Ser que tudo o que a gente considera importante,
acaba nos iludindo e perdendo seu encanto?
Selena comeava a pensar assim, pois o que ela mais valorizava,
as coisas que ela desejava
conquistar,  pareciam ficar somente EM SEUS SONHOS  Selena estava convencida de que seu novo ano no colgio seria perfeito. Mas... l no fundo ela tinha de admitir 
que desde a mudana de sua famlia para Portland, h alguns meses, as coisas no haviam sado do jeitinho que ela havia imaginado. Por incrvel que pudesse parecer, 
Selena ainda no tinha conseguido fazer amigos na escola. 
Decide ento correr atrs de novas amizades. Em seus planos estavam tambm arrumar um emprego para ter seu prprio dinheiro. Mas isso no vai ser nada fcil. O caminho 
para alcanar seus objetivos est repleto de obstculos... 
Acompanhe Selena nessa histria cheia de surpresas: um fim de semana sozinha com sua av doente, as dificuldades em conseguir o to sonhado emprego, o primeiro encontro 
com um rapaz da escola interessado nela e o reaparecimento de Paul, o rapaz misterioso que ela havia conhecido h algum tempo e que balanara seu corao.



Ttulo original: In Your Dreams
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2000
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat
      
      
      



Srie Selena 2


Em Seus Sonhos




Robin Jones Gunn












Para minha cunhada, Kate Gunn Medina, e seu marido e filhos: Al, Adrian, Andr e Alysssa.
Que Jesus esteja sempre presente em seus sonhos













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Captulo Um

      - Como  que voc consegue viver desse jeito? indagou Tnia, a irm de Selena.
      Ela pegou no cho uma cala jeans que estava cada no seu lado do quarto e atirou sobre a cama da irm, ainda desarrumada. A cala foi parar bem em cima de 
uma pilha de roupas que Selena lavara na segunda-feira. Era quinta-feira, e a garota ainda no as guardara.
      - Eu no estou me intrometendo com suas coisas! replicou Selena, pegando o jeans e colocando-o junto com suas outras roupas sujas que se achavam no cho. S 
porque voc tem mania de arrumao, isso no quer dizer que todo mundo tem de ter!
      - Voc no precisa ser igual a mim, Selena. Mas tente ao menos ser normal.
      - Normal? Eu sou normal. Voc  que tem neurose de arrumao, Tnia. Seu cabelo est sempre superpenteado. Voc no sai sem se maquiar. Suas unhas esto sempre 
impecveis. Voc no se cansa de parecer uma "modelo" o tempo todo?
      - Que grosseria, Selena!
      - Ah, ? E voc?
      - Eu no estou sendo grosseira, no!
      - Pois eu acho que jogar minha cala pra c desse jeito foi uma tremenda grosseria, sim!
      - Se voc arrumasse suas coisas de vez em quando, eu no precisaria jogar nada por a. Nesse final de semana, po exemplo, ser que daria para voc deixar o 
meu lado arrumadinho como est agora e, at quando eu voltar, dominga  noite, tentar ajeitar o seu?
      Selena mordeu o lbio inferior para no soltar as palavras que lhe vieram  mente. Parecia que no adiantava nada retrucar. Nas vezes em que o fizera, acabara 
arrependendo-se depois. Estava convencida, porm, de que ter de ficar no mesmo quarto com uma irm que tinha mania de arrumao era uma das piores formas de sofrimento 
que podiam existir no mundo. Devia estar na lista das torturas. Algum dia ela ainda iria descobrir essa lista e mostrar aos pais. A eles compreenderiam o quanto 
ela j sofrer nos seus dezesseis anos de vida por ter de aturar a sempre perfeita Tnia Jensen.
      - Estou falando srio, Selena, insistiu a irm, fechando o zper de sua mala. Um dia desses voc vai ter de parar de ser to bagunceira. Sugiro que comece 
agora, nesse final de semana.
      Selena sentou-se no cho, perto do seu montinho de roupas sujas, e correu os olhos pelo quarto. Os dois lados do aposento eram completamente diferentes, o 
oposto um do outro. A cama de Tnia estava perfeita. No se via nela nem uma ruguinha. As almofadas bordadas achavam-se posicionadas no ngulo exato. Sobre a cmoda 
havia um forro branco, rendado, onde tudo se encontrava perfeitamente de acordo. Parecia um pequeno palco. Bem no centro, estava uma jarrinha com trs tulipas, que 
ela colhera pela manh no jardim. Ao lado dela, havia dois porta-retratos. Num deles, estava a foto de formatura de Tnia e no outro, uma que fora tirada quando 
ela era beb. Havia quatro vidros de perfume ou "fragrncias", como dizia a irm. Estavam bem enfileirados e com o rtulo virado para a frente, para a "platia". 
Perfume era a "paixo" de Tnia. A moa trabalhava no setor de perfumaria da Loja Nordstrom. Fora l que fizera amizade com as pessoas com quem iria passear nesse 
final de semana. Iam esquiar no monte Bachelor.
      Selena tambm tinha planos para o final de semana, mas noera fazer um passeio com amigos. Desde que a famlia se mudara para Portland, algumas semanas antes, 
Tnia j fizera amizade com uma poro de gente. J havia at enchido uma pgina e meia da sua agenda de endereos com o nome e telefone desses novos amigos. A agenda 
de Selena ainda no tinha um nome sequer.
      Fazer amizades era de fato um de seus problemas. Contudo mais difcil ainda era arranjar dinheiro. Tinha esperanas, porm, de resolver essa questo muito 
breve. No sbado de manh, teria uma entrevista numa floricultura, para ver se arranjava um trabalho ali. A loja ficava em Hawthorne, a sete quadras da casa em estilo 
vitoriano onde morava a famlia de Selena. E ela gostava de flores, mas no tinha muita certeza se conseguiria aprender a fazer arranjos. Sua viso esttica e artstica 
era um pouco diferente da maioria das pessoas. Notava-se isso pela maneira como Selena se vestia. Gostava de roupas simples, informais. No tinha nada "vistoso", 
tipo vitrine, como era o caso de Tnia, com suas roupas e seu lado do quarto.
      E era assim que ela se via tambm. Uma pessoa simples, natural, descontrada. Seu cabelo louro, bem anelado, dava nos ombros. E ela o deixava ao natural. Tinha 
olhos azul-acinzentados, como a cor do cu numa manh de inverno, que alegravam seu rosto de expresso sincera. E no usava maquiagem nem para disfarar as sardas 
que cobriam todo o nariz.
      Certo dia, alguns meses antes, Selena estava examinando suas sardas ao espelho e em dado momento se deu conta de que o que tinha de mais bonito eram os lbios. 
Tanto o superior como o inferior eram de igual tamanho, redondos e cheios, perfeitos para ser beijados. , mas isso ela ainda no sabia direito, pois o nico garoto 
que a beijara nos lbios fora seu sobrinho Tyler, de trs anos.
      - Selena!
      Ela ouviu uma batida na porta e a voz da me.
      Ah, essa  tima! pensou. Tnia j foi falar com mame para vir implicar comigo por causa do quarto.
      - Entra! gritou. J at sei o que a senhora vai dizer!
      Sua me apareceu  porta. Seu rosto, normalmente tranquilo, tinha naquele instante uma expresso preocupada Usava uma saia jeans justa e uma blusa branca, 
com as mangas arregaadas. Tinha na mo um pedao de papel.
      - O que foi? indagou Selena. A senhora no est passando bem?
      - Tio Daniel acabou de telefonar. Grace est no hospital. Ela e os gmeos tiveram um acidente de carro. Os meninos no sofreram nada, mas Grace quebrou os 
dois braos. Falei com Daniel que vou tentar pegar o primeiro vo para l. Tem um que sai s sete da noite.
      Selena se levantou, sentindo que precisaria fazer algo.
      - E tia Grace est bem?
      A me fez um aceno de cabea, respondendo que sim.
      - Est, disse. Ela ter de permanecer internada pelo menos at amanh. Mas vai ficar com os braos engessados durante vrias semanas. Obviamente no poder 
cuidar de Ivan e Nathan. Os dois estavam dormindo no carro na hora do acidente. Foi um outro veculo que bateu no deles, num cruzamento. Daniel disse que eles esto 
bem.
      Selena sabia o quanto sua me era ligada a Grace, sua irm mais nova. Ela sentia quase obrigao de ajudar Grace sempre que esta precisasse. Por isso fora 
para Phoenix, por ocasio do nascimento dos gmeos. Isso acontecera um ano e meio atrs. Parecia que ela era uma espcie de me para a irm. Assumira essa posio 
quando a me delas morrera, havia cerca de vinte anos. Agora, ento, era tambm uma espcie de "av" para os filhinhos dela.
      - Ento a senhora vai hoje, s sete da noite? indagou Selena.
      - Ainda preciso conversar com seu pai, quando ele chegar, disse a me, dando uma olhada para o relgio de pulso. Ele deve estar chegando. E como Tnia foi 
esquiar, e seu pai est pensando em ir acampar com os meninos, voc ter de ficar sozinha com V May.
      - Tudo bem.
      - , eu sei que voc  capaz de cuidar de tudo, continuou. S que, s vezes, quando V May tem uma daquelas falhas de memria, fica difcil lidar com ela.
      - Mas eu dou conta, me. Comigo, quase sempre ela fica com a mente lcida.
      A me de Selena ajeitou atrs da orelha o cabelo castanho-claro, cortado curto. Selena notou que ela tambm tinha lbios redondos e cheios.
      - A senhora est preocupada porque V May ter de ficar sozinha o dia inteiro amanh? Eu posso faltar de aula, se a senhora achar melhor.
      - No. No quero que voc perca aula, no. Creio que no vai haver nenhum problema. Afinal, antes de nos mudarmos para c, ela ficou anos sozinha.
      - Mame, disse Selena cruzando os braos, vai dar tudo certo. Me d uma oportunidade de provar que sou capaz de cuidar de tudo.
      - Voc no precisa provar nada, filha, replicou a mame.
      Nesse momento, elas ouviram os passos do pai de Selena subindo a escada. Instantes depois, ele chegava ao quarto da filha. Era um homem de aparncia vigorosa. 
Seu cabelo, j ia escasseando na testa, era a nica indicao de que entrara na faixa dos quarenta anos.
      - Eu escutei, disse ele, dando um rpido beijo na esposa.
      Selena pensou se o pai j percebera que a me dela tinha lbios bonitos, perfeitos para ser beijados, como ele acabara de fazer. Ser que os homens notavam 
esse tipo de detalhe? Principalmente depois de j haverem passado vinte e cinco anos beijando os mesmos lbios?
      - Posso pegar o vo das sete horas, explicou a me, mostrando ao marido o pedao de papel. Tem um que sai 10:20h, mas faz escala em Los Angeles.
      - Pode pegar o das 7:00h. Eu cancelo o passeio com os meninos.
      - No precisa no, pai, interveio Selena. Eu fico com V May. No vai ter problema algum.
      Os pais de Selena se entreolharam com ar de hesitao.
      - O que foi? indagou a garota, levantando-se e dando um passo sobre seu monte de roupas, pronta para confirmar o que dissera. Vocs esto me olhando como se 
eu no fosse capaz de encarar essa situao. J se esqueceram de que um ms atrs viajei sozinha para a Inglaterra e voltei direitinho?  claro que posso ficar uns 
dias aqui com minha av.
      - No  com voc que estamos preocupados, no, explicou o pai.
      - V May tem passado bem, disse Selena. J faz uma semana ou menos, que ela no fica esquecida. E ela no foi ao mdico outro dia mesmo?
      - Foi, replicou a me.
      Ela caminhou at a porta e cerrou-a silenciosamente. Depois continuou falando em voz baixa, para que s o marido e Selena escutassem:
      - O mdico pediu alguns exames e eu a levei hoje de manh ao laboratrio.
      - Sim, e da? indagou o esposo.
      - Acho que os resultados devem ficar prontos na prxima semana. Mas tudo que vai dar nos exames, ns j sabemos. A mente dela est falhando, mas no mais ela 
est com tima sade.
      - Podem confiar em mim, afirmou Selena. Ns duas vamos ficar muito bem aqui. Vamos, sim!
      E alis, pensou consigo, nem vou precisar cancelar meus compromissos sociais, j que no tenho nenhum mesmo.
      Sua me deu um suspiro.
      - Os meninos estavam aguardando com tanta ansiedade o passeio para ir acampar...
      - Est bem. Ns vamos, disse o pai, tomando a deciso prontamente. Selena, voc vai ficar no comando da situao, filha. Meu bem, continuou ele, virando-se 
para a esposa, vou lev-la ao aeroporto daqui a uma hora e, s 4:30h da madrugada, irei acampar com os garotos, como j havamos programado. Se voc tiver algum 
problema, Selena, ligue para o Cody ou ento para o Wesley, t bom?
      Selena logo pensou que no adiantaria nada ligar para um de seus irmos mais velhos. Cody - que era casado com Katrina e tinha um filho de nome Tyler - morava 
no estado de Washington, a mais de uma hora de distncia. Wesley estudava fora, num lugar chamado Corvallis, que ficava a quase duas horas. Se ela tivesse algum 
problema, eles no poderiam ajud-la em nada. Contudo tinha certeza de que poderia resolver quaisquer dificuldades que surgissem.
      - Voc  simplesmente incrvel, Selena! Sabia? Disse a me, dando-lhe um beijo na testa. Estou sempre muito admirada com voc; e muito feliz tambm! Ah, e 
por falar nisso, se arranjar um tempinho nesse final de semana, d um jeito de arrumar o quarto, o.k.?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dois
      
      - Selena, uma voz grave sussurrou bem perto do ouvido da jovem. Querida, eu e os meninos j estamos saindo.
      A garota fez um esforo para abrir os olhos pesados.
      - Pai?
      - No precisa acordar, no, filha. S queria lhe dizer que j estamos de sada. Voc ps o relgio para despertar, no ps?
      - Sim.
      Ele deu-lhe um beijo leve na face.
      - Obrigado por se dispor a assumir as rdeas de tudo aqui. E lembre que se houver algum problema  s ligar para sua me, na casa da tia Grace, ou para Wesley 
ou Cody.
      - Vai dar tudo certo, pai, tenho certeza, resmungou ela, puxando mais as cobertas e encolhendo-se bem. Divirtam-se bastante! E peguem muito peixe, viu?
      - Vamos pegar, sim. Tchau, querida!
      Selena relaxou para dormir, mas ficou um longo tempo na "zona" intermediria - no estava completamente desperta nem dormindo. E a os sonhos iam sempre mudando.
      Uma hora via V May, com ar distrado, procurando uma pena num dos armrios. Depois era Kevin, seu irmozinho de seis anos, tentando permanecer firme s margens 
do regato, enquanto um peixe enorme o puxava para a gua. Da a pouco, a pena aparecia esvoaando e caa na pgina do seu livro de Biologia. Quando ela ia peg-la 
via, com o canto dal olhos, um vulto masculino com um chapu tipo Indiana Jones e uma mochila de couro.
      Imediatamente abriu os olhos. Viu apenas o quarto s escuras. Paul. Selena soltou um suspiro e fechou os olhos, procurando voltar a dormir. Queria cair num 
sono profundo, onde os fragmentos de sonhos podem ir e vir numa dana louca, mas desaparecem com a luz do amanhecer. Era a que Paul teria de permanecer - em seus 
sonhos.
      Ficou mais de duas horas remexendo-se na cama, tentando adormecer, mas sem sucesso. Afinal, s 7:00h, levantou-se mal-humorada e dirigiu-se para o banheiro 
meio cambaleante. No sabia ao certo se deveria acordar a av ou simplesmente deixar-lhe um bilhete, avisando que fora para a aula e que estaria de volta em torno 
de 4:00h da tarde.
      Decidiu vestir uma cala jeans bem larga (que Tnia achava ridcula) e uma blusa bordada (que a irm considerava horrvel). Parou em frente do espelho grande 
que havia no corredor e ficou a examinar sua imagem alguns minutos. Ainda bem que hoje Tnia no iria dar palpites sobre sua maneira de vestir. Ouviu V May remexendo 
no quarto e foi at l, batendo de leve na porta.
      - Entre, queridinha!
      Bom sinal. "Queridinha" era um apelido carinhoso que V May usava com a neta. E ultimamente ele passara a ter um outro sentido tambm. Se a av a chamasse 
por esse apelido, podia-se saber que estava vivendo "no presente". Se no a tratasse por "queridinha", provavelmente estava pensando que Selena era algum do seu 
"passado". Momentos antes, Selena tivera receio de que a mente da av "embarcasse" na sua perigosa "mquina do tempo", que a transportaria para outra fase de sua 
vida.
      - Bom dia! exclamou Selena em tom alegre, entrando no amplo quarto.
      Vov estava arrumando a cama. Retirava o edredom grosso e quente e estendia a velha colcha feita  mo. Era uma colcha de retalhos que ela mesma confeccionara, 
utilizando pedacinhos de tecidos das roupas dos filhos, que fora guardando durante vrios anos. O cmodo era agradvel e de aspecto alegre. Havia uma lareira que 
ela acendia com frequncia e uma janela grande, junto  qual se via um assento.
      - J estou quase pronta para ir pra aula, disse Selena. O que a senhora vai fazer o dia todo aqui sozinha?
      - Hmmm, creio que vou fazer o de sempre: patinar de manh e jogar boliche  tarde. E pode ser tambm que sobre tempo para ir tomar ch com o prefeito antes 
de voc voltar da escola, disse ela, com um brilho brincalho no olhar.
      Selena sentiu que ela estava alerta e com seu humor de sempre.
      - Ahn! Parece que vai se divertir muito! disse a jovem, brincando tambm. No se esquea de colocar as cotoveleiras, hein?
      Nesse momento o telefone tocou, e Selena atendeu na mesinha de cabeceira da av, antes que esta pudesse fazer a volta e peg-lo. Bateu os olhos no relgio 
eletrnico, que marcava 7:58h. Tinha de sair dentro de dois minutos.
      -  a Sra. Jensen? indagou uma voz masculina.
      - Aqui  Selena Jensen, filha da Sharon, explicou.
      - Eu queria falar com May Jensen.
      - Um momento. Ela est bem aqui.
      Selena tapou o bocal com a mo e disse para a av:
      -  um dos seus namorados. Provavelmente vai sugerir que a senhora v fazer um bungee jumping * hoje tambm.
      V May pegou o fone e Selena tratou de terminar de arrumar a cama dela. Ouviu-a responder ao seu interlocutor.
      - Ah, ? Oh! No, no! O.k.! ... Bom, no! Est bem! Tchau!
      A senhora recolocou o fone no gancho no instante e que a neta saa porta afora.
      - E a? indagou Selena, olhando por sobre o ombro. O que mais vai fazer hoje? Bungee jumping ou pra-quedismo?
      - Vou operar da vescula, replicou V May.
      Selena riu, vendo a av continuar a brincar.
      - Ento, divirta-se! falou.
      Desceu a escada correndo e parou junto  porta da frente para pegar sua mochila, que estava no cabide.
      - Tenha um timo dia, v!
      - Selena! gritou a av com voz aguda, ainda no alto da escada. Voc pode me dar uma carona?
      A garota parou, sentindo uma leve irritao ao pensar que talvez chegasse atrasada  escola. Volta e meia, ia levar a av  farmcia ou  mercearia, mas ser 
que hoje ela no poderia deixar isso para depois das aulas?
      - V, eu levo a senhora aonde quiser, mas depois que chegar da escola.
      J ia saindo e fechando a porta quando ouviu V May outra vez.
      - Mas eu tenho de estar l antes das nove.
      - Nove da manh ou nove da noite?
      - Da manh, explicou ela, com sua vozinha tremida.
      Selena entrou de volta na sala e, procurando controlar a irritao, indagou:
      - Aonde  que a senhora tem de ir?
      - Para o hospital.
      Selena ficou certa de que a cabea de V May comeava mesmoa vacilar de novo.
      - No  hoje no, v.
      -  hoje, sim. O Dr. Utley ligou agorinha mesmo e disse que no posso beber, nem comer nada e tenho de estar l s nove. Mas ento pego um txi.
      Dizendo isso, ela se virou e foi caminhando para o quarto.
      - Est bem, disse Selena. Tchau! At de tarde!
      - Eu no vou estar aqui no, replicou V May. Vou para o Hospital St. Mary. Voc pode ir direto pra l.
      Selena ficou sem saber o que fazer. Como era possvel que a mente da av mudasse assim de uma hora para outra? No poderia deix-la ali sozinha, com esse problema. 
Ela era bem capaz de chamar um txi e sair para algum lugar. O que faria se chegasse em casa e a av no estivesse? Soltou um resmungo de impacincia, largou a mochila 
no cho e subiu a escada de dois em dois degraus. V May estava no quarto, dobrando algumas peas de roupa e guardando-as numa bolsa de viagem.
      - Ele disse que no posso comer nem beber nada, nem mesmo gua. E agora, s porque no posso, estou morrendo de fome. Foi uma bno o Dr. Utley ter resolvido 
ler os resultados dos exames hoje cedo. Ele vai viajar s trs da tarde e ficar fora uma semana. No posso esperar esse tempo lodo.
      V May pegou um vidro de loo hidratante e continuou falando e arrumando a mala.
      -  por isso que no me incomodo de ele ter avisado e cima da hora.  claro que quero que ele mesmo faa a cirurgia. Foi ele que operou Paul, quando ele teve 
apendicite.
      Paul era um dos filhos dela. Ele morrera na guerra do Vietn, o que a deixara bastante traumatizada. Sempre que ela comeava a falar desse filho, tinha uma 
crise de esclerose.
      Selena sentou-se na beirada da cama e colocou a mo sobre o brao dela, para tentar fazer com que parasse de arrumar a maleta.
      - Vamos fazer uma coisa, disse. A senhora fica em casa hoje e me espera aqui, no seu quarto. A senhora vai ficar muito bem. Pode assistir  televiso ou ler 
um livro. Quando eu voltar, ns duas vamos procurar o Dr. Utley. Que tal? Ta bom assim?
      V May dirigiu-lhe um olhar irritado e retirou a mo lentamente.
      - No sei por que voc est falando comigo desse jeito Selena. Mas quero lhe dizer que no estou brincando. Quem me telefonou h pouco foi o Dr. Utley. Pelo 
resultado dos exames que fiz, ele disse que tenho de extrair a vescula o mais rpido possvel. E como quero ser operada por ele, tenho de ir agora de manh. Mas 
no se preocupe com nada. Pode ir pra escola. Eu pego um txi.
      Selena no sabia mais o que pensar e ficou em dvida sobre o que fazer.
      - ... posso me atrasar um pouco, disse afinal.
      Resolveu que iria esperar que essa crise matinal da av passasse. Iria para a escola assim que percebesse que a mente dela voltara ao normal.
      - Oh, meu pai! exclamou V May, olhando para o relgio. J so 8:25h. Estou atrasando-a para a aula, no , queridinha?
      Selena ficou paralisada. Ela me chamou de "queridinha". E ela s me trata assim quando est em seu juzo normal. E se realmente estiver dizendo a verdade?
      Com a cabea a mil, Selena levantou-se e disse:
      - Est bem. Enquanto a senhora termina aqui, vou dar uma chegadinha l embaixo. 
      Em seguida, saiu do quarto, fechou a porta, desceu a escada correndo e entrou na saleta do andar de baixo. Foi at uma velha escrivaninha de carvalho e pegou 
a agenda telefnica. Abriu-a nervosamente, procurando o nome do Dr. Utley. Discou o nmero e assim que a telefonista atendeu disse:
      - Al! Preciso falar com o Dr. Utley imediatamente.  urgente! Meu nome  Selena Jensen.
      - Um minuto, por favor!
      Para Selena, que estava aguardando, aquele minuto pareceu uma hora. Escutava os passos da av no andar de cima.
      - Vamos, vamos! Depressa! murmurou ao telefone.
      - Al! Dr. Utley falando!
      - Al, Dr. Utley. Aqui  Selena Jensen. Sou neta da Sra. May Jansen. Sinto muito ter de incomod-lo, mas minha av disse que o senhor ligou para ela agora 
de manh, e que ela vai ter que fazer uma cirurgia. E no estou sabendo direito o que fazer, porque s vezes ela fica meio esquecida e confunde as coisas e...
      - Entendi, disse o mdico, interrompendo-a. Sua me est em casa?
      - No, replicou a moa. Ser que o senhor poderia conversar com minha av e explicar tudo direitinho para ela?
      - Na verdade, tenho de explicar  para voc. Sua av fez uns exames ontem, e o clnico enviou os resultados para mim. Ela est com vrios clculos na vescula. 
Um deles deslocou-se e est entupindo um dos canais biliares. J marquei a cirurgia dela para hoje s 11:00h. Ela precisa estar no hospital at s 9:00h.
      Selena teve a sensao de que o ar da saleta havia acabado.
      - Est bem, conseguiu dizer afinal. Vou lev-la para l imediatamente.
      Recolocou o fone no gancho e deu um suspiro profundo. Sentiu o corao bater com fora.
      - Queridinha, disse vov com sua vozinha frgil, estou pronta.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

Captulo Trs
      
      O Hospital St. Mary ficava a poucos quilmetros da casa de V May. Selena encontrou uma vaga bem perto da porta de entrada. s dez para nove, elas estavam 
se apresentando na recepo. V May assinou uns documentos, e em seguida ela pegaram um elevador e foram para um quarto. L vov iria trocar de roupa e vestir a 
camisola do hospital. A seguir, deveria deitar-se na cama e esperar.
      - Volto j! disse Selena afastando-se, pensando em ligar para a me.
      - Espere a, queridinha! Fica vigiando a porta a pra mim enquanto troco de roupa. No deixa nenhum enfermeiro entrar no.
      Selena abriu a cortina que havia em torno do leito e postou-se  porta. Da a pouco chegava um funcionrio do laboratro. Selena barrou-o.
      - Ela est trocando de roupa, disse. Espere s um minuto.
      -  o Ted? indagou V May.
      Selena mordeu o lbio inferior. Ted era o nome do seu av. E ele morrera quando ela ainda era bem pequenina. Agora, V May devia estar mesmo confusa.
      - Meu nome  Larry, senhora. Preciso retirar amostra do seu sangue. Quando estiver pronta, me avise.
      - Estou pronta, replicou ela em voz calma. 
      Selena abriu a cortina. A av estava deitada na cama, coberta at no queixo com o lenol branco. Tinha uma expresso passiva, tranqila. A animao que demonstrara 
cedo desaparecera.
      - Feche a mo com fora, disse o rapaz, pegando no brao muito branco.  s uma espetadinha aqui... Fique firme, j est quase acabando... Pronto. Dobre o 
brao e segure isso bem aqui.
      V May nem pestanejou. Olhou para Selena e deu um sorriso.
      Oh, minha querida vov! pensou Selena. Quem ser que a senhora acha que sou quando olha pra mim? Uma das suas filhas? A enfermeira? Ser que pelo menos sabe 
que estou aqui? Que ser que devo fazer?
      Selena continuou ao lado da cama durante uma hora. As duas no conversaram muito. Pelo menos Selena no falou muito. V May pediu uma xcara de caf e um leno 
de cabea, azul, que deixara no carro. Perguntou a que horas iria embora dali. Nada daquilo fazia sentido. Selena no a contrariou, mas tambm no arredou p.
      V May parecia no estar se dando conta do que se passava. Sem fazer indagaes, assinou um documento no qual estavam relacionados todos os objetos com que 
chegara ao hospital. A enfermeira lhe disse que fosse ao banheiro, e ela foi sem objetar. Estendeu o brao para que lhe fosse aplicada uma injeo intravenosa e 
apenas piscou de leve com a picada da agulha. Selena estava at aliviada de ver que ela se achava mais ou menos desligada mentalmente dos preparativos para a cirurgia.
      Quando vieram busc-la, Selena indagou se poderia conversar ligeiramente com o mdico.
      - Pode vir conosco, disse a enfermeira.
      A moa seguiu-a, andando ao lado da maca. Num impulso, inclinou-se, pegou a mo da av e ficou a segur-la com firmeza enquanto iam descendo o corredor. Sua 
av tinha mos graciosas, a pele fina e sedosa e levemente enrugada.
      - Agora espere aqui, falou a enfermeira.
      Eles continuaram empurrando a maca, e Selena, no sem certa relutncia, teve de soltar a mo de V May.
      - Tchau! murmurou baixinho.
      Instantes depois, viu chegar um homem idoso, vestido com a roupa verde do hospital. Ele se aproximou dela.
      - Voc  a filha de May? indagou ele.
      - Neta, corrigiu Selena. , eu sou a Selena. Queria s lhe dizer que ela est um pouco confusa. De manh, depois que o senhor ligou, ela estava tima. Mas 
agora parece que est com a crise de esquecimento de novo. No sei se isso vai fazer alguma diferena no que diz respeito  operao, mas eu queria lhe avisar.
      - Obrigado, disse o mdico, batendo-lhe de leve na mo. No se preocupe. Ela vai ficar boa. Voc poder ficar com ela na sala de observao? Acho que ser 
bom que ela veja uma pessoa conhecida na hora em que voltar da anestesia.
      - Posso. Eu fico com ela.
      Selena sentiu um forte aperto na boca do estmago. Sabia que tinha de telefonar para a me e contar o que estava acontecendo, mas havia diversos problemas. 
Primeiro, no tinha de cor o nmero do telefone de tia Grace. E estava na dvida se deveria ir em casa olh-lo ou ficar junto da av. V May estava sendo operada. 
Achou que era melhor permanecer no hospital.
      Talvez o melhor a fazer fosse ligar para o irmo e a cunhada. Eles deveriam saber o nmero e ligariam para a me.
      Selena vasculhou o fundo da mochila  procura de dinheiro e acabou descobrindo que o que tinha no daria para pagar um interurbano. Teria de ligar a cobrar. 
Katrina iria compreender.
      O problema era que Katrina no estava em casa e a telefonista no permitiu que ela deixasse recado na secretria eletrnica. Agora ento o dinheiro acabara 
e ela no havia resolvido nada. A nica alternativa seria ir em casa.
      Assim que entrou no casaro vazio, Selena foi logo dar telefonemas. Em primeiro lugar, ligou para a tia e deixou um recado na secretria. Como no queria assustar 
a me dizendo-lhe que V May estava no hospital, deixou um recado simples.
      "Oi, me. Aqui  Selena. Assim que a senhora puder, liga para mim ainda hoje... o mais depressa possvel. Preciso conversar com a senhora."
      Desligou e depois ficou pensando se no deveria ter deixado um recado mais claro. Em seguida, anotou o nmero num pedao de papel e guardou-o na mochila. Mais 
tarde iria ligar de novo, l do hospital. Em seguida, discou novamente o nmero de Cody e deixou uma mensagem, pedindo que entrasse em contato com ela em casa. Para 
eles tambm no disse nada sobre V May nem sobre a cirurgia.
      Pegou uma caixinha de suco de laranja, alguns biscoitos e umas moedas que a me "escondia" na gaveta da mesa da cozinha. Eram moedas que ficavam esquecidas 
nos bolsos da roupa e que sua me encontrava depois na secadora. Ela dizia que eram a sua "gorjeta".
      Em seguida, saiu apressadamente para retornar ao hospital. Ali esperou quase duas horas. Tentou ligar para a tia duas vezes, e nas duas desligou um pouquinho 
antes de a secretria se ligar automaticamente, para poder pegar as moedas de volta. No havia mais o que fazer, a no ser sentar e ficar aguardando que V May sasse 
do bloco cirrgico. Forasm as duas horas mais longas de sua vida.
      Por volta de 13:30h, uma enfermeira veio at a sala de espera e disse que Selena j podia ir para a sala de observao e ficar com a av. Ento a garota sentou-se 
numa cadeira e ps-se a esperar mais algumas horas. Ficou folheando algumas revistas que havia por ali e, de vez em quando, cochilava. Pensou em fazer outra tentativa 
de ligar para a me, mas achou melhor deixar para depois. E se V May voltasse a si enquanto ela estivesse telefonando?
      Pegou o ltimo biscoito e deu uma mordida. Nesse momenton, ouviu um gemido.
      - Estou aqui! disse Selena, dando um salto e aproximando-se da cama.
      Sentiu uma forte comoo interior e teve vontade de chorar. Sua av querida parecia to fraquinha ali com aqueles tubos ligados a ela! Estendeu o brao e tocou 
de leve na mo dela.
      - Est tudo bem! disse, tentando confortar a av e a si mesma. A senhora vai ficar boa.
      Uma enfermeira entrou no quarto e se ps a olhar a paciente com os cuidados de praxe. Selena deu um passo para trs.
      - Volto j! disse a moa. Se ela disser qualquer coisa, explique que Selena volta j.
      Caminhou apressadamente corredor abaixo em direo do telefone pblico e discou o nmero da tia. Estava ocupado. Aguardou alguns minutos e ligou de novo. Ainda 
ocupado. Ficou nervosa, como se fossem repreend-la por haver levado V May para ser operada sem ter pedido a permisso deles.
      Discou de novo. Dessa vez, chamou. Aparentemente havia algum em casa, ento Selena deixou o telefone tocar quatro vezes. Na quarta, a "secretria" ligou automaticamente.
      "Oi!" disse. " Selena de novo. Me, eu preciso muito falar com a senhora. Ahn..." parou sem saber o que mais dizer. "Eu... ah..." gaguejou.
      Receando que o dinheiro acabasse antes que terminasse o recado, soltou tudo de uma vez.
      "Estou no hospital e V May..."
      No pde terminar a sentena. O tempo acabou e o fone ficou dando sinal de ocupado, cortando o que ela dizia. "Ah, essa  tima!" resmungou, procurando mais 
dinheiro.
      S tinha trinta e cinco centavos. No era suficiente para ligar para Phoenix. Irritada, Selena voltou correndo para quarto para ver a av. Entretanto, quando 
chegou l, V May no se encontrava mais ali.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Quatro
      
      
      - Com licena, disse Selena para uma enfermeira de uniforme branco que passava. Estou procurando a Sra. May Jensen. Sabe pra onde a levaram?
      Ela consultou sua prancheta de mo onde havia uma lista de pacientes.
      - Quarto 417, replicou. O elevador fica no fim do corredor.
      Selena soltou um suspiro de alvio. Por uns instantes, pensou que houvera alguma complicao e que tivessem levado sua av de volta para a sala de cirurgia.
      Entrou no elevador calmamente e concluiu que talvez estivesse assistindo  televiso demais, principalmente aos programas com temas de "hospital". O quarto 
417 ficava no meio do corredor, prximo ao posto de enfermagem. Selena entrou e viu que V May parecia dormir tranqilamente. Ela linha uma respirao bem peculiar 
quando adormecia. Era suave, mas constante, como que "encrespando" o ar. A jovem parou ao lado da cama e falou em voz baixa:
      - Sou eu. Selena. A senhora est bem? Orei pela senhora. Tenho certeza de que correu tudo bem.
      Nesse momento, o Dr. Utley entrou no quarto.
      - Ela j acordou? indagou ele.
      - No. Ou pelo menos no acordou de todo.
      -  provvel que fique dormindo mais algumas horas, explicou o mdico. A essa altura, o efeito da anestesia j passou, mas aplicamos uns analgsicos muito 
fortes que causam sonolncia.
      Ele olhou atentamente para o rosto de V May e em seguida examinou o soro e as sondas.
      - Parece que ela est bem, disse. Acredito que vai ficar boa. Tivemos muita sorte de descobrir o problema bem cedo. Havia apenas dois clculos, mas ambos eram 
grandes. Tive de fazer uma inciso de cerca de quinze centmetros aqui, explicou ele, correndo o dedo em um ponto do lado direito do prprio abdmen, logo abaixo 
das costelas.
      Selena teve vontade de levar as mos  barriga, mas conseguiu conter-se. Sentira uma estranha sensao no estmago s de ouvi-lo falar no corte, e achou que 
era melhor no procurar ver nada.
      - Ela ter de ficar internada pelo menos uma semana. Nos primeiros dias, estar meio grogue, mas sabendo que voc est aqui se sentir melhor, continuou o 
Dr. Utley, sorrindo para Selena. Voc sabe que sua av  uma mulher notvel, no sabe?
      Selena sorriu.
      - , eu sempre achei isso tambm, replicou.
      - Eu no me espantaria nada se ela se recuperasse na metade do tempo que os outros pacientes da idade dela levam para sarar.
      - E no entanto, comentou Selena, abaixando a voz para o caso de V May estar escutando,  muito doloroso saber que seu organismo est forte, mas a mente... 
concluiu ela, deixando a voz sumir, sem saber como terminar a frase.
      - , eu sei, disse o Dr. Utley, acenando afirmativamente.  preciso um pouco de pacincia e muito amor. Isso ajuda bastante.
      Ele deu uma espiada rpida no relgio.
      - Bom, tenho de pegar o avio, disse num tom mais animado. Vou sair de frias. Estava precisando de uma folga h um bom tempo. Meu assistente, o Dr. Adams, 
vai continuar cuidando dela por mim.  possvel que ele passe aqui mais tarde, hoje ainda. 
      - Obrigada, falou Selena. E tenha timas frias!
      - Espero que sim, respondeu ele, caminhando para a porta.
      Selen chegou perto da cama e tentou de novo conversar com V May.
      - Ouviu isso, v? O Dr. Adams vir aqui para ver a senhora. Vou ficar enquanto a senhora quiser que eu fique, t bom? Se precisar de alguma coisa,  s dizer.
      A resposta de V May foi um suspiro ligeiramente mais profundo. Selena foi para uma poltrona que havia num canto. Dobrou as pernas na cadeira, sentou-se sobre 
elas e se ps a olhar pela janela. O quarto dava para outra fachada do prdio do hospital. L embaixo, no centro dos blocos do complexo hospitalar, havia um jardim 
muito bonito e bem cuidado. Estava chovendo. Olhou para o cu. Algumas nuvens escuras pareciam estar mais baixas, enquanto outras se mostravam fixas mais no alto. 
No dava para ver o cu azulado acima delas. Era uma tpica tarde de primavera em Portland.
      Selena se ps a recordar tudo que lhe havia acontecido nos ltimos meses. Em janeiro, fora para a Inglaterra, numa viagem missionria. Ali fizera amizade com 
as trs jovens que haviam ficado no mesmo quarto que ela: Cris, Katie e Trcia. Embora essas moas fossem um pouco mais velhas, Selena se dera muito bem com todas, 
em tudo e por tudo. Entendera-se at melhor com elas do que com garotas da sua prpria idade. Quando ela estava na Europa, sua famlia que morava em Pineville, uma 
cidadezinha da Califrnia, mudara-se para Portland. Em Pineville, ela conhecia todo mundo e todos a conheciam. Era uma das alunas mais populares de sua escola. Em 
Portland, porm, era apenas uma ilustre desconhecida.
      Aqui ela estudava numa escola particular, um colgio evanglico. A princpio gostara da idia, pois, como o colgio era menor do que as escolas pblicas de 
Portland, achou que se sentiria mais ou menos como em sua escola de Pineville. Contudo, depois que regressara da Inglaterra, tivera certa dificuldade de ajustar-se 
ali. O incio havia sido horrvel para ela. Mais tarde, tudo acabara se acertando, mas ela ainda no se integrara bem na turma.  claro que, em parte, ela prpria 
era a culpada. No se esforara nem um pouco para fazer amizade com os colegas. Ainda assim, sendo ali uma escola evaglica, ela achara que os alunos seriam mais 
amigveis do que os da escola pblica, que eram mais numerosos. Entretanto no era o que estava acontecendo.
      V May remexeu-se na cama. Selena olhou para ela, mas a av acomodou-se, retomando o ritmo constante de sua respiraao. A jovem voltou a olhar pela janela 
e a concentrar-se nas suas recordaes.
      Selena pensou que, embora no quisesse deixar V May ali sozinha, amanh teria de ir  entrevista na floricultura, onde havia a possibilidade de arranjar um 
emprego. Sem o trabalho, no teria dinheiro, e assim seria mais difcil participar dos crculos sociais do Colgio Royal.
      Duas semanas atrs, Amy, uma colega, convidara-a para irem a uma pizzaria numa sexta-feira  noite. Ela aceitara, mas quando a moa viera peg-la, os pais 
de Selena no estavam em casa para lhe darem dinheiro, e ela no tinha nada na bolsa.
      Desculpou-se com Amy, dizendo que seus pais no estavam em casa e que no se sentia com liberdade de sair sem a permisso deles. A amiga pareceu entender a 
situao, mas depois disso nunca mais a convidara para nada. Ento Selena estava convencida de que o emprego seria a soluo para sua falta de relacionamento social.
      Selena permaneceu vrias horas ao lado da cama, ouvindo a respirao compassada de V May e cumprimentando cada enfermeira que entrava para dar uma espiada 
na paciente. Sentiu o estmago "roncar" e pensou que deveria ir comer algo e tentar telefonar de novo para a me. Contudo no queria sair antes que V May acordasse; 
para que ela soubesse que a neta se achava ali. Afinal, quando comeou a escurecer, achou que teria mesmo de sair. Foi ao posto das enfermeiras e explicou que iria 
sair e que demoraria uma hora ou menos. Elas se limitaram a sorrir compreensivamente, mas pareciam presas ao seu trabalho. Obviamente, no tinham para com V May 
o mesmo interesse que a neta.
      Selena teve uma sensao meio estranha quando subiu a escadinha da entrada da velha casa, em meio  escurido da noite e abriu a porta. Nunca estivera ali 
sozinha. Como em sua famlia havia seis filhos, raramente ficava a ss. Sentiu-se meio tensa ao entrar na sala e caminhar para acender a luz. Entretanto os cheiros 
peculiares da casa lhe transmitiram a sensao de conforto. Havia um odor de canela misturado ao de naftalina. Eles estavam associados a recordaes de infncia, 
ao lugar em que ela gostava de se esconder quando brincavam de "pegador": o armrio largo e alto, forrado com um papel vermelho e amarelo, j meio desbotado. Ela 
le enfiava bem no fundo dele, atrs dos pesados casacos de inverno, sentindo aquele cheiro de naftalina e de canela. Ainda se lembrava de que numa de suas frias 
seu pai havia lido um livro para eles. Era a histria de quatro crianas que entravam num armrio cheio de casacos velhos e por ali chegavam a uma terra mgica chamada 
"Narnia". E Selena acreditara que aquilo poderia acontecer realmente. Alis, estava convencida de que aquele armrio da casa de V May tambm era encantado. Se entrasse 
nele num momento mgico, tambm seria levada para "Narnia". E tentou isso vrias vezes, at que completou onze anos. No entanto, embora tivesse parado de fazer tentativas, 
l no fundo ainda cria que seria possvel. Era um devaneio maravilhoso ao qual ela at gostaria de poder entregar-se. Seria muito gostoso entrar no armrio e ficar 
ali bem encolhidinha. Mas no. Agora j tinha dezesseis anos e no momento sua responsabilidade era cuidar da av. Ento tentou novamente ligar para a me. Dessa 
vez, o tio atendeu.
      - Al!  Selena! disse.
      Antes que ela pudesse dizer outra palavra, o tio se ps a berrar no telefone.
      - Onde  que voc est? O que  que est acontecendo? Que recado foi aquele que voc deixou na secretria? Sharon, vem c!  sua filha!
      Selena nunca gostara muito do tio Daniel. Sua me veio ao telefone. Falou com uma voz calma, meio forada, e a moa percebeu que ela estava cansada. Se ela 
estivesse em casa agora, iria vestir uma roupa esportiva e sair para fazer seu cooper e voltar toda suada.
      - Como  que voc est, Selena?
      - Estou bem, respondeu. O problema  com V May. Hoje de manh o Dr. Utley ligou e disse que, pelos resultados dos exames, ela deveria ser operada da vescula 
imediatamente, E a cirurgia foi s onze horas.
      Selena deu os detalhes e mame ficou escutando calmamente. A garota ouvia a respirao pesada do tio, que estava escutando na extenso. Aquilo a deixou irritada. 
Assim que ela terminou de explicar tudo, ele disse:
      - Ns passamos a tarde toda tentando entrar em contato com voc. Deixou sua me muito aflita, sabia?
      - Est tudo bem, interveio a me. E como  que ela est?
      - Quando sa de l, ainda estava dormindo sob efeito dos remdios. Vou s fazer um lanche e voltar para l em seguida. Me, onde  que tem dinheiro nesta casa? 
Tive de pegar as suas "gorjetas" da secadora pra poder ligar para a senhora. 
      Sua me explicou-lhe que dentro de uma das gavetas da escrivaninha do escritrio havia um envelope com dinheiro. Disse que ela podia pegar o quanto precisasse. 
Selena tirou $20,00 dlares.
      - Vou ver se volto para casa amanh, disse a me.
      - Ah, que maravilha! resmungou tio Daniel na extenso, colocando o fone no gancho.
      A me ficou em silncio alguns instantes, e depois disse:
      - A situao aqui est um pouco difcil. Acha que d para passar a noite sozinha a?
      - Vou voltar para o hospital, replicou Selena. Quero passar a noite l, com V May.
      Houve outra pausa, e em seguida a me disse:
      - Voc  o sonho de toda me, filha. Sabia? Se houver algum problema, ligue para mim, o.k.? Pode ligar, mesmo que seja no meio da noite. E se voc no telefonar, 
ento amanh cedo ligo para o hospital para saber notcias.
      - 'T bom, disse Selena. Assim est timo. Tenho certeza de que ela vai passar muito bem.
      - Vou ficar orando por isso, concluiu a me.
      
      
Captulo Cinco
      
      
      Selena passou a noite encolhida na poltrona que havia no quarto de V May. Por volta de 3:30 av acordou. Gemeu alto e parecia estar chorando. Selena saltou 
da poltrona e correu para perto da cama. Imediatamente apertou o boto par chamar a enfermeira.
      - Calma, v! disse. A enfermeira j est vindo. A senhora quer um pouco de gua?
      Pegou um copinho com gua que estava na mesinha de cabeceira e deu para ela, juntamente com um canudinho. Entretanto V May no quis beber. Nem ao menos abriu 
os olhos. Ficou s gemendo e tentando se mover.
      - Cad essa enfermeira? resmungou Selena. A senhora est incomodada, v? Quer que a ajude a mudar de posio ou algo assim?
      A enfermeira entrou no quarto.
      - Oi! disse.
      - Ela est gemendo, explicou Selena, procurando falar com calma, embora estivesse nervosa. No sei o que fao.
      - Como  que voc est, hein? disse a mulher para V May, pegando de leve a mo dela para lhe sentir o pulso. Est sentindo dor?
      V May gemeu mais forte.
      - Ah, ns podemos dar um jeito nisso.
      Ela examinou o frasco de soro e continuou falando mais para si mesma do que para Selena ou a paciente.
      - Vamos colocar outro frasco aqui para voc.
      - Seri que ela sabe que estou aqui? indagou Selena.
      A enfermeira fez que sim.
      - Ela est apenas grogue.  muito bom que voc esteja aqui. Continue conversando com ela. Volto j.
      Selena pegou a mo de V May e segurou-a de leve. Estava fria e suada.
      - Como  que est minha avozinha querida? perguntou com voz alegre.
      Selena no levava muito jeito para animar uma pessoa doente. Contudo gostava muito da av e, por ela, seria capaz at mesmo de exibir uma fachada de coragem 
quando na verdade se sentia meio insegura.
      A enfermeira retornou e fez seu servio. Em seguida, V May se acalmou e dormiu de novo. Selena voltou para a poltrona e se ajeitou nela, cobrindo-se com um 
cobertor. No conseguiu dormir. Passou as horas frias da madrugada orando e pensando. Orou e pensou bastante.
      Passava um pouco de 7:00h quando a campainha do telefone a despertou de uma leve sonolncia. Deu um salto para atender.
      - Al!
      - Al!  mame. Como voc est?
      - Estou bem. V May passou a noite muito bem. Ainda est dormindo, replicou Selena, sussurrando.
      - No. No estou, no, queridinha. Quem ?
      Selena olhou para a av. Tinha os olhos um pouco inchados, mas no havia dvida de que estava acordada.
      -  mame. Quer falar com ela?
      - Acho que sim. No tenho muito o que dizer, respondeu ela, com a voz meio rouca.
      Selena aproximou o fone do ouvido da av.
      - No, disse V May, respondendo a uma pergunta da me de Selena. Estou bem. S no estou conseguindo me mexer. Estou cheia de tubos por todo lado.
      Selena fitava a av e viu a expresso do rosto dela se anuviar, lembrando-lhe as nuvens que vira no cu no dia anterior. O olhar dela era de quem estava confusa, 
sem lucidez. Ela fitou Selena e depois o aparelho.
      - Diga pra eles que no quero mais, falou com rispidez, afastando o rosto do telefone e procurando virar o ombro.
      Selena pegou o fone rapidamente.
      - Me, disse ela, acho que ela est com uma de suas crises de esquecimento.
      - No quero nenhum, resmungava V May. Se eu quisesse mais panos de prato teria dito para eles.
      - Me! disse Selena.
      - Calma, Selena. Fique calma e tranqila. Vai dar tudo certo. Olhe, eu est...
      Selena largou o fone e correu para segurar a mo da av. Ela estava tentando arrancar o fio do soro.
      - Tem de deixar isso a, falou com firmeza. No pode tirar ainda no.
      Com uma das mos segurou o pulso da av, para que ela no arrancasse o tubinho, e com a outra apertou o boto para chamar a enfermeira. Do fone dependurado, 
vinha a voz de sua me que a estava chamando.
      - Fique assim, disse Selena, batendo de leve na mo da av e afastando-a do fio do soro. A senhora est boa!
      - Mas eu no quero, insistia V May. Eles deviam ter me perguntado.
      Em seguida, ela se ps a chorar como uma criana que sente que perdeu a luta. Nesse instante a enfermeira entrou no quarto. Era uma nova, que Selena ainda 
no vira.
      - Oi! disse, cumprimentando-a nervosamente. Minha av est tentando arrancar a agulha do soro.
      - Pode no! disse a enfermeira meio na brincadeira, como se estivesse repreendendo uma criancinha.
      Isso irritou Selena.
      - Olhe aqui, falou em tom de defensiva, ela no est entendendo as coisas direito no, viu?
      A mulher olhou para a jovem com expresso de espanto e pegou a mo de V May para examinar-lhe o pulso. Selena largou o brao que estava com o soro e pegou 
o fone.
      - Mame?
      - Pronto, querida, Est tudo bem a?
      - No sei. Creio que sim. Ela est com uma de suas crises de esclerose e...
      - Voc agiu certo. Escute, eu ia lhe dizer que estou aqui no aeroporto.
      - Em Phoenix?
      - No. Em Portland. Peguei o primeiro vo hoje cedinho. Acha melhor eu tomar um txi para ir ao hospital?
      Selena pensou um pouco. Sabia que levaria apenas meia hora para ir ao aeroporto e voltar.
      - No, disse ela, com os olhos fixos na av e na enfermeira. Vou a busc-la. Acho que V May ficar bem aqui. Eu a encontro perto da esteira de bagagem.
      Desligou e se ps a observar a enfermeira, que fazia algumas anotaes no computador onde se achavam registrados todos os dados e medicamentos da paciente. 
Parecia que V May voltara a dormir, embora estivesse meio inquieta.
      - D uma olhada nela pra mim, disse para a mulher. Volto j.
      -  pra isso que eu ganho os milhes que recebo todo ms, minha filha, replicou a enfermeira num tom rspido.
      Selena saiu apressadamente, j desejando ter dito  me que pegasse um txi. No teve dificuldade para sair do estacionamento do hospital e descer a via expressa 
em direo ao aeroporto. O difcil seria acertar a pista certa ao chegar l. Ela j se perdera mais de uma vez nas vias expressas de Portland, mas hoje no tinha 
muito tempo de sobra. Senta-se responsvel por V May.
      Afinal avistou a placa que indicava a via de acesso para o aeroporto e conseguiu entrar sem maiores problemas. Avistou a me no setor de recolhimento das bagagens 
e saltou do carro para dar-lhe um abrao. Assim que sentiu os braos da me em torno dela, teve vontade de chorar, mas resistiu ao impulso. Fora forte at aquele 
momento e poderia continuar firme para no assustar a me.
      Sua me jogou a mala no assento de trs do fusca, e Selena passou para o banco do passageiro. To logo saram da movimentada rea do terminal, ela soltou um 
suspiro de alvio. Agora a me estava na direo; e no era apenas do carro.
      - Como  que voc est? indagou ela, dando um olhar rpido para a filha.
      Antes, porm, que a moa respondesse, ela continuou:
      - Seria bom se a gente pudesse entrar em contato com seu pai. O mdico falou quanto tempo ela ter de ficar internada? Ela j comeu alguma coisa?
      - Estou bem, creio que no e no, replicou Selena. Utilizara o mtodo que seu irmo Wesley adotara para responder  me, que sempre fazia as perguntas uma 
atrs da outra. Sua me sorriu.
      - Nem lembro mais as perguntas que fiz, disse ela. Estou to preocupada com as duas! Vamos comear de novo. Voc est bem?
      - Claro. Estou tima.
      - Voc foi maravilhosa, Selena!
      - Eu no fiz nada, me. Na verdade, quase estraguei tudo.
      Contou-lhe que no acreditara em V May quando esta dissera que o mdico havia telefonado.
      - Ainda bem que voc teve o bom senso de no ir  aula, disse a me, abanando a cabea. No sei se eu teria tido. Quer que a leve pra casa para voc dormir 
um pouco?
      - No, quero ir para o hospital com a senhora.
      Selena olhou pela janela do carro quando entravam na via expressa. Nesse momento se lembrou de que tinha uma entrevista marcada na floricultura Zuzu's Petals, 
dali a pouco, s 9:00h.
      - Na verdade, talvez seja melhor eu ir para casa mesmo. Quero tomar um banho antes da entrevista. Acho que estou meio desarrumada.
      - E voc ter de ir a p  floricultura, disse a me.
      - Tudo bem, replicou a jovem. So apenas alguns quarteires.
      Momentos depois, s cinco para as nove, Selena achou que aqueles quarteires haviam se transformado em quilmetros. Apressou o passo. Com uma das mos, pegou 
o cabelo, bem cheio e encaracolado, e agitou-o de leve para cima e para baixo. Na nuca, ainda estava um pouco molhado. Vestira uma camiseta clara, de mangas compridas, 
com um coletezinho bordado. Pusera uma saia de algodo, bem leve que ia at um pouco abaixo dos joelhos. E enfiara nos ps seu calado predileto - a velha bota de 
cowboy que tinha sido de seu pai. Selena se apegara muito a ela, embora estivesse velha e meio fora de moda. Alis, esse calado era sua "marca registrada".
      Quando faltava apenas uma quadra para chegar  floricultura, comeou a cair uma garoa leve. Passou em frente de uma confeitaria, onde viu uma fila de clientes 
aguardando a "sada" dos pezinhos doces, quentes, temperados com canela. Naquele momento a porta se abriu e o cheiro forte chegou at ela, dando-lhe vontade de 
entrar na fila tambm, entretanto, se quisesse chegar  hora ao seu compromisso, no poderia parar agora. A Zuzu's Petals ficava duas lojas abaixo.
      E com mais alguns passos chegou  loja. Selena fez uma rpida orao e girou a maaneta da porta. Estava tranca
      
      
      
      
      
      
Captulo Seis
      
      Selena foi at a portinha lateral da loja e espiou pela fresta. Em seguida bateu de leve na vidraa. A luz estava apagada; no se via movimento algum no cmodo 
dos fundos.
      Estranho! pensou. Tenho certeza de que a entrevista seria hoje. E j passa de nove horas. Por que ser que no tem ningum aqui?
      Olhou para um lado e outro. Talvez a dona da loja tivesse ido tomar um caf e comer um daqueles pezinhos quentes, com sabor de canela. Repassou mentalmente 
a conversa que tivera com a mulher, uma semana atrs. Tinha certeza de que ela marcara para hoje, s 9:00h da manh.
      Fora V May quem arranjara essa entrevista para Selena. A av adorava flores e havia muitos anos que era cliente da Zuzu's Petals. A moa j ouvira a av dizer 
vrias vezes:
      - Se eu tivesse s dois dlares, com um compraria po e o outro gastaria em flores. O po  alimento para o corpo, mas as flores satisfazem o corao.
      Na semana anterior, V May ligara para a floricultura encomendando flores para uma tia de Selena que tivera beb. E antes de encerrar a conversa, ela estendera-o 
para a neta, dizendo:
      - Ela vai lhe dar um emprego, queridinha.
      Selena conversara rapidamente com a mulher e combinara de ir l. Agora encontrava-se  porta da loja fechada, sando se aquilo no fora um sonho.
      Um casal idoso passou perto dela, sob a chuva fina, cada um com um copo de caf na mo e um saquinho de papel branco, que parecia conter os pezinhos de canela.
      - Bom dia! disseram os dois juntos.
      Ela deu um sorriso e respondeu ao cumprimento. Em seguida passaram duas mulheres conversando animadamente. Logo depois delas, veio um senhor baixo, levando 
amarrado a uma coleira um enorme cachorro preto. Postada ali debaixo do toldo verde da loja, Selena se sentia quase como um porteiro de hotel. Seu estmago estava 
pedindo:
      - Quero um pozinho de canela!
      O bom senso, porm, expondo uma poro de motivos, mandava que ela permanecesse ali at aparecer algum. Sentia-se um pouco apreensiva, pensando que talvez 
devesse ter ido com a me para o hospital e, depois, ter ligado para a loja, marcando uma outra data para a entrevista. Todavia permaneceu ali durante uns bons vinte 
minutos.
      Afinal uma pequena van chegou e parou em frente loja. Na porta estavam gravadas em letra cor-de-rosa as palavras Zuzu's Petals.
      - Voc  Selena? indagou a mulher que viera ao volante, saltando do veculo e correndo para debaixo do toldo. Eu sou a Charlotte. Desculpe a demora.
      Ela destrancou a porta e virou a placa onde se lia "Fechado". *
      - Tive pedidos de arranjos para dois casamentos agora de manh e me atrasei, continuou ela explicando. Vamos entrar. Quer caf?
      - No, obrigada.
      - Ento voc  a neta de V May, hein? Gosto muito dela. Como  que ela est?
      A dona da loja era uma mulher de muita energia. Tinha cabelo preto, bem curto, e olhos castanho-escuros, muito brilhantes, que combinavam com o cabelo. Na 
orelha direita tinha uns seis brincos de prata. Selena ainda no conseguira perceber se simpatizaria com ela ou no.
      - Bom, pra falar a verdade, ela est internada. Fez uma operao de vescula ontem.
      Charlotte parou meio abruptamente e olhou para ela com expresso de preocupao.
      - Ah, eu no sabia. Ela est passando bem? Est no St. Mary?
      - Est. Parece que passa razoavelmente bem, replicou Selena.
      - Voc ir v-la hoje? Vou mandar umas flores pra ela. Ontem recebi uns lrios amarelos maravilhosos. Oh, mas que pena que ela est internada!
      Enquanto Charlotte expressava seus sentimentos de pesar, foi para trs do balco e se serviu de caf. Perto havia uma pequena geladeira, que ela abriu com 
o p. Retirou dela uma caixa de leite com sabor de baunilha. Derramou um pouco no caf e em seguida fechou a porta da geladeira ainda com o p. Fez tudo isso num 
s movimento.
      - Tem certeza de que no quer caf? insistiu.
      - No, obrigada, replicou Selena.
      - Sou movida a caf, disse Charlotte, virando-se e acendendo as luzes da loja, que de fato era um encanto.
      Selena pensou que muito da energia dessa mulher devia ser proveniente da cafena, e no um elemento natural de sua personalidade.
      - Ento vejamos, continuou Charlotte, sentando-se num tamborete atrs do caixa e tomando um gole de seu caf. Posso lhe pagar salrio mnimo, e o horrio de 
trabalho  das 8:00h s 17:00h, aos sbados e domingos. Voc precisar ter carro prprio, mas lhe daremos um acrscimo para o combustvel. Quer a vaga?
      Selena ficou parada, meio sem saber o que pensar. A entrevista  s isso?
      - Posso trabalhar sbado o dia todo, replicou, mas nada aos domingos. E nem sempre vou poder ter o carro  minha disposio. Achei que vocs queriam algum 
para trabalhasse aqui na loja, e no para fazer entregas.
      - No. Precisamos mesmo  de um entregador. Foi por isso que tive de sair cedo de manh. Alis, minhas scias ainda esto na rua. O caso  que temos de ficar 
as trs na loja e queremos arranjar um funcionrio para ficar por conta das entregas. E essa pessoa vai ter que trabalhar aos domingos tambm. Se voc no puder 
trabalhar nos dois dias, no posso lhe dar o emprego, explicou ela, sem rodeios.
      - Ento acho que no vai dar pra mim, respondeu Selena, tambm de forma direta. De qualquer jeito, muito obrigada. Espero que consiga arranjar algum.
      Assim dizendo, virou-se para sair, mas Charlotte exclamou:
      - Espere a!
      Desceu do tamborete e caminhou rapidamente para os fundos da loja. Instantes depois retornava com um buqu de lrios amarelos, envolto em papel celofane e 
amarrado com uma imensa fita cor-de-rosa.
      -  para V May, explicou. Diga-lhe que todas ns lhe enviamos nossos votos de pronta recuperao.
      Selena pegou as flores e pensou que a melhor maneira de carregar aquilo era como se fosse uma Miss Universo desfilando na passarela.
      - Obrigada, disse. Acho que ela vai adorar. 
      - , vai sim, disse Charlotte, retomando seu caf. At mais, Selena!
      Chegando  calada, Selena comeou a desejar que tivesse trazido uma sombrinha. A chuva fina havia aumentado um pouco. No se importava de se molhar, mas queria 
proteger as flores. Elas eram muito bonitas, mas o pacote todo era meio volumoso. Sentiu-se um pouco sem jeito de ir caminhando com aquilo. Desistiu inclusive de 
comprar os pezinhos de canela. No conseguiria carregar mais nada alm das flores. Se pegasse mais um embrulho, teria problemas, principalmente com toda aquela 
chuva. Passou direto pela padaria, prometendo ao seu estmago que breve voltaria ali.
      A chuva apertou. Selena pensou que deveria ter trazido um agasalho. A manga da camiseta estava grudando em sua pele. Sentia a barra da saia tambm pegando 
na batata da perna. O cabelo lhe caa nas costas e colava no rosto. Teve mu arrepio e se ps a andar mais depressa, procurando cobrir e proteger um pouco as flores. 
Sentiu-se deprimida.
      Parecia que todas as suas emoes haviam se ajuntado numa enorme bola. Tinha a sensao de estar carregando um peso de vinte quilos, debaixo daquela chuva. 
No conseuira o emprego. No tinha dinheiro, nem amigos, nem previso de que a situao fosse melhorar num futuro prximo. Alm disso, sua amada av estava internada 
e ia pouco a pouco perdendo a lucidez. No havia dvida de que a vidinha calma e pacata de Pineville acabara mesmo. Antes eram os passeios a cavalo, os piqueniques 
com os vizinhos, as campinas cobertas de flores silvestres. Agora eram ruas movimentadas, cachorros latindo, nibus soltando uma fumaa negra e floriculturas gerenciadas 
por pessoas frias, movidas a cafena. Selena sentiu uma enorme solido.
      Ento se ps a chorar, achando que talvez isso lhe trouxesse um pouco de alvio. E lgrimas grandes e quentes lhe rolaram pela face, contrastando com a chuva 
fria. Ergueu o rosto para o cu e deixou que a gua a molhasse por completo. Soluos lhe subiam do peito. No se importou nem um pouco de que as pessoas a vissem 
chorar nem ligou para o que pudessem pensar. Deixou escapar alguns soluos, sem tentar reprimi-los. Nada do que lhe dizia respeito estava saindo do jeito como queria.
      E a chuva continuava caindo. Tinha a impresso de que algum derramara um balde de gua em cima dela. Faltavam apenas cinco quarteires para chegar em casa. 
Assim que entrasse, iria direto para a cama. Ou talvez fosse melhor tomar um banho bem quente, na banheira.
      Chegou a uma esquina onde havia um semforo. Parou esperando o sinal abrir para ela. Com o canto do olho, percebeu que um jipe negro tambm parar ali. Estava 
bem ao lado dela, a poucos metros. Embora a janela do veculo estivesse fechada, dava para ouvir uma msica alta, que vinha l de dentro. E ouviu tambm muitas risadas 
de homens. Ser que estavam rindo dela? Se estivessem, ela no poderia nem reclamar. Se ela estivesse dentro daquele carro, provavelmente tambm iria rir da figura 
dela. Sabia que estava ridcula, mais parecendo uma segunda colocada no concurso de beleza das "frangas molhadas".
      As gargalhadas daqueles homens s serviram para aumentar ainda mais sua goa. Sentiu uma raiva enorme domin-la. Piscou para remover as lgrimas dos olhos 
e virou a cabea com um movimento brusco. O rapaz que estava no banco do passageiro olhava diretamente para ela. Seus olhares se encontraram. Selena suspendeu o 
flego. A expresso de seu rosto mudou. E o cara que a fitava parou de rir.
      Era Paul.
      O sinal abriu. O carro arrancou e partiu. Paul virou para trs, continuando a olhar para ela. Da a pouco sumiram de vista.
      Selena deu um passo para atravessar a rua e pisou numa poa de gua. Sentia-se entorpecida por dentro e por fora.
      Era o Paul. Ele me viu e estava rindo de mim.
      Selena nem viu como caminhou aquelas ltimas quadras at em casa. Sua mente estava longe. Estava no Aeroporto de Heathrow, em Londres, onde conhecera o rapaz. 
Ela fora a um telefone pblico e o vira ali. Ele lhe pedira algumas moedas emprestadas para completar seu telefonema. Naquele momento, parecera que houvera um "clique" 
entre eles. Depois, quando estavam no avio, haviam conversado um pouco e acabaram descobrindo que tinham amigos comuns. Tudo parecia estar correndo muito bem. A, 
em dado momento, ele ficou sabendo a idade dela. Ele j estava na faculdade e tinha mais de vinte anos. Selena tinha apenas dezesseis e ainda estava no segundo ano 
do curso mdio. O interesse de Paul por ela desapareceu no mesmo instante. Apesar disso, mais tarde ele lhe escrevera uma carta, que ela, por sua vez, respondera. 
Isso acontecera vrias semanas atrs. E ele ainda no dera resposta  cartinha dela. Agora, depois daquele breve instante em que se viram na esquina, ela teve certeza 
de que ele nunca mais iria escrever. Era outro motivo para chorar. E ela chorou a valer.
      
      
      
      

Captulo Sete
      
      
      Selena se esticou bem na banheira antiga, sentindo a gua quentinha. Fazia muito tempo que no tomava um banho daqueles. A ltima vez fora na poca em que 
era menina e todos vinham passar as frias com a av. Depois que tinham vindo morar na velha casa vitoriana de V May, ela s tomara no chuveiro do banheiro do andar 
de cima, que fora remodelado. Ento gora procurou relaxar bastante na gua morna e reconfortante.
      Assim que chegara em casa, ligara para o hospital. A me dissera que V May estava passando bem. Naquele momento estava descansando. Em seguida, a me lhe 
sugerira que dormisse um pouco para se refazer da noite passada no hospital, sentada na poltrona. Aps o almoo, as duas voltariam para junto da av.
      Era o que Selena precisava - um tempo para relaxar. Depois do belo banho quente, vestiu um bluso e uma cala de moletom. Com isso, e uma xcara de ch de 
jasmim, iria er-guer o esprito, que se achava envolto em emoes pesadas havia cerca de uma hora.
      Quando ela estava se servindo de mais um pouco de ch, o telefone tocou.
      - Al! disse atendendo e sentindo um desejo profundo de que fosse Paul.
      - Oi, Selena! O que est fazendo? indagou uma voz feminina.
      - Nada, replicou ela. Quem ?
      Ela ficava furiosa quando as pessoas ligavam e iam conversando sem dizer quem eram.
      - Puxa! Quer dizer que j se esqueceu da gente? continuou a outra brincando.
      - Oi, Selena! falou outra voz de mulher.  Cris! Agora voc j sabe de quem  a outra voz.
      - Katie! Cris! Oi, gente! Como  que vocs esto?
      - Estamos brbaras! replicou Katie. E voc?
      - Essa  a palavra que ela mais est usando agora, Selena, explicou Cris, entrando na conversa. Voc vai cansar de ouvir isso.
      Selena tirou o saquinho de ch de dentro da xcara e foi para a saleta, equilibrando o telefone sem fio entre o queixo e o ombro. Sentou-se numa poltrona de 
que gostava muito e colocou a xcara num descanso de copos, na beirada de uma mesa prxima.
      - Que legal que vocs ligaram! Parece que nossa viagem  Inglaterra foi h sculos!
      -  mesmo! concordou Katie.
      - Mas foi s algumas semanas atrs, disse Cris. Como  que voc est?
      - Nem pergunte, replicou Selena, bebericando um pouco do ch. As semanas que passaram foram pssimas, e esses dois ltimos dias foram um verdadeiro desastre. 
E vocs? Me contem como esto. Quem sabe isso me deixar mais animada.
      - Estamos aqui fazendo brownies, respondeu Cris. Quer dizer, estamos tentando fazer, se a Katie no comer todas as "gotas de chocolate".
      - Comi s um pouquinho, defendeu-se a outra. Alm disso, a gente pode pr algumas passas e ningum vai notar a diferena.
      - O Ted vai, replicou Cris.
      - Ele est a tambm? indagou Selena.
      - No; ele est na casa do pai, em Newport. Ns vamos para l hoje  tarde, porque  noite vai haver uma festa na casa da Trcia. Queramos que voc viesse 
tambm, Selena.
      - Oh, gente, no me torturem assim. Vocs sabem que eu adoraria ir. Daria tudo para v-las de novo.
      - Ento, venha! exclamou Katie, dando mais nfase  ltima palavra.
      - Ah, timo! falou Selena. Vocs se esqueceram de um bom detalhe - estou a mais de mil e quinhentos quilmetros de distncia! 
      - J ouviu falar em avio? perguntou Katie.  uma das maravilhas do mundo moderno. Voc pode chegar aqui em poucas horas.
      - J ouviu falar em dinheiro? retrucou Selena. J escutou aquela frase: "No tenho dinheiro"?
      - Ento arranje, disse Katie.
      - J tentei, replicou Selena, levantando os ps e sentando-se em cima deles para aquec-los. Tive uma entrevista para um emprego hoje cedo. Foi a mais curta 
deste mundo. Mas no consegui o trabalho. Era numa floricultura. Queriam que eu trabalhasse no domingo, o dia todo, e que tivesse carro prprio, para fazer entregas.
      - Voc explicou que no trabalharia domingo porque vai  igreja? indagou Cris.
      - No. A mulher nem perguntou por qu. Eu s disse que no poderia trabalhar no domingo.
      - Olha, disse Cris, eu trabalhei numa loja de animais. Avisei para o meu patro que no poderia trabalhar no domingo porque tinha de ir  igreja, e ele foi 
muito compreesivo. Voc tambm poderia tentar explicar tudo para a mulher l.
      - , exclamou Selena, mas no adiantaria. De qualquer jeito, no tenho carro prprio. Temos um fusca aqui que eu minha me usamos, mas ele j  meio velho. 
No d pra confiar nele. Mesmo que me aceitassem para trabalhar no sbado, nem sempre eu poderia ficar com o carro o dia todo. , no ia dar certo, no.
      - Que pena! falou Cris. Vai tentar arranjar outro emprego?
      - Vou, replicou Selena. Aqui por perto tem muita loja e lanchonete. Creio que d para encontrar um trabalho aqui sim.
      - E assim que arranjar servio, interveio Katie, v logo avisando que vai folgar no recesso da Pscoa, ouviu? Voc tem de vir para c, passar a semana toda 
conosco.
      - Se eu tiver dinheiro.
      - Tem de vir! disse Katie.  uma ordem!
      Selena escutou um rudo de algum mastigando.
      - Katie, voc est comendo o chocolate de novo? indagou Selena.
      - S um pouquinho.
      - Assim vamos ter de comprar mais chocolate, Katie, falou Cris. Puxa, nunca pensei que fosse dizer uma coisa dessas, mas talvez aquela sua crise de alimentao 
natural no tenha sido to ruim assim. Pelo menos os chocolates no acabavam to depressa.
      Selena riu.
      - Ah, gente, estou com tanta inveja de vocs! disse ela.
      - Inveja  pecado! exclamou Katie.
      - Ah, voc entendeu o que quero dizer. Vocs j so amigas h tanto tempo! Mas eu, desde que me mudei para c, no fiz amizade com ningum. No conheo uma 
pessoa sequer que pudesse convidar para vir  minha casa para fazermos brownies.
      - J, j, voc arranjar algum, comentou Cris.
      - Ah, ? Como?
      - Ponha um anncio, ensinou Katie, dando outra mastigada.
      - Como assim?
      - Ponha um anncio no jornalzinho da escola.
      Selena riu.
      - E como seria esse anncio? "Precisa-se de uma alma gmea"?
      - , isso mesmo, replicou Katie, ainda mastigando. Que h de errado nisso?!
      - Onde  que voc arranja essas idias, Katie? perguntou Cris. E pra de comer esses chocolates!
      - Voc no sabe que o chocolate  a melhor coisa do mundo para o crebro? observou Katie. Agua a percepo daquilo que  bvio. E est claro que Selena est 
precisando de amigos. Continuo achando que o melhor a fazer  pr o anncio no jornal.
      - Pois eu, disse Cris, vou orar para que Deus lhe mande um tesouro peculiar, e que ele venha  sua porta.
      - Ei, espera a. Ela no est querendo pedir uma pizza, no, interveio Katie. Oua meu conselho, Selena, ponha o anncio no jornal.  o melhor jeito de arranjar 
amigos.  brbaro! Mas, falando de tesouro peculiar, e de tesouro brbaro, o que aconteceu com Paul?
      - Ah, que coincidncia voc falar dele! exclamou Selena.
      - Quem  Paul? quis saber Cris.
      - Lembra daquele cara que te falei que Selena conheceu no aeroporto de Londres, quando ela estava voltando, que veio no mesmo avio, que eu disse que ele era 
crente, que tinha um irmo chamado Jeremy, que era colega do Douglas e quando fui na casa do Douglas no ms passado, Jeremy estava na reunio do grupo "Amigos de 
Deus", e deu ao Douglas uma carta que o irmo dele escreveu para Selena, e o Douglas entregou a carta pra mim e eu mandei para Selena? explicou Katie num s flego.
      - Voc no me contou nada disso, falou Cris.
      - Claro que contei!
      - Contou no, insistiu Cris, seno eu lembraria.
      - Tenho certeza de que contei, Cris. Parece que ultimamente sua memria anda muito seletiva.
      - O que voc quer dizer com isso?
      Selena tomou outro gole de ch e ficou a ouvir as duas amigas discutindo, cada uma na sua extenso do telefone.
      - Quando  algum assunto que diz respeito ao Ted, voc guarda direitinho na memria. O que no for relacionado com ele, fica perdido.
      - Ah, obrigada, Katie! exclamou Cris em tom irnico. Essa foi tima! A verdade  que voc no me contou mesmo que Selena tinha conhecido esse cara... como 
 o nome dele?
      - Paul, replicaram Selena e Katie juntas.
      - Ah, e eu o vi hoje, interveio Selena rapidamente, antes que as duas recomeassem a "batalha" amistosa.
      - Que brbaro! exclamou Katie. Como foi?
      Selena descreveu a cena em que estivera toda molhada, carregando o enorme embrulho do buqu de lrios. Do outro lado da linha, as duas a ouviam em completo 
silncio, interrompido apenas pelo rudo caracterstico de um saquinho de gotas de chocolate.
      - Al! Ser que estou deixando as duas chateadas com essa minha longa histria?
      - Claro que no! replicou Cris imediatamente. S foi muito estranho voc t-lo visto desse jeito. O que vai fazer agora?
      - Nada. O que posso fazer?
      - Talvez ele lhe telefone para perguntar se voc est bem, comentou Katie. Pelo menos  isso que acontece nos filmes.
      - No, interveio Cris. No filme, ele teria mandado o amigo dele parar o carro, teria corrido em sua direo com um guarda-chuva aberto e a teria levado at 
em casa. Chegando l, voc faria um ch para os dois.
      Selena riu.
      - E agora estou at tomando ch, explicou. Talvez, no meu caso, seja um filme classe B, daqueles bem baratos, e acaba comigo tomando ch sozinha. No tem o 
mocinho nem o guarda-chuva.
      - Ento o meu, interveio Katie, seria classe Z. No teria o mocinho, nem o guarda-chuva, nem a histria...
      - O seu parece mais um filme de suspense, interrompeu Cris. O final dele  um que ningum espera.
      - E a sua histria, disse Katie para Cris, est se tornando um daqueles romances de final previsvel. A garota conhece o rapaz. Durante quatro anos, o rapaz 
se mostra um verdadeiro bobo. A garota se transforma numa linda mulher. Afinal o rapaz "acorda" e a garota vira uma perfeita abobalhada.
      Selena riu.
      - , disse ela, pelo visto, tudo est indo muito bem entre voc o e o Ted.
      - Mais ou menos, replicou Katie, respondendo pela amiga. Voc precisa vir aqui logo, Selena. Vou convocar uma reunio de emergncia do nosso clube "Apenas 
Amigos". Como eu e voc somos as nicas que ainda so scias, voc  obrigada a vir. Ainda lembra do nosso clube, no lembra?
      - Claro! replicou Selena. Como eu iria esquecer? E ainda tenho plenas credenciais para fazer parte dele. No h nenhum rapaz na minha vida, nem mesmo como 
amigo.
      E como a garota estivesse se sentindo com um esprito de gozao, continuou:
      - A no ser que, hoje de manh, Paul tenha ficado to impressionado com minha estonteante beleza, que j tenha vindo para c para me tomar em seus braos.
      - S em sonhos, Selena! comentou Katie. Na minha opinio, voc pode riscar esse gaiato de sua lista. Talvez deva especificar no anncio que est procurando 
novos scios para o nosso clube "Apenas Amigos". Podemos aceitar rapazes tambm em nosso grupinho.
      - No mexe com esse negcio de anncio, no, aconselhou Cris. Comece a orar. Eu tambm vou orar para que voc conhea umas pessoas bem legais a.
      - Ento ore tambm para eu arranjar um emprego, disse Selena. Falta menos de um ms para o recesso da pascoa.
      - Est bem, replicou a amiga.
      Nesse momento, a porta da sala se abriu e Selena se ergueu de um salto. Sabia que sua me s iria chegar  tarde. Olhou para o velho relgio que se achava 
sobre a mesa de carvalho. Marcava 10:57h. A garota escutou passadas no assoalho de madeira de entrada. Arrependeu-se de no ter trancado a porta. Cobrindo a boca 
e o fone com uma das mos, disse:
      - Gente, entrou algum aqui em casa.
      - Voc est sozinha? indagou Cris.
      - Estou, replicou Selena em voz baixa.
      A moa seguiu os passos se dirigindo para a cozinha e sentiu o corao bater com fora. Eram passadas pesadas, como de um homem.
      - No desliguem, no, falou para as amigas. Fiquem na linha. Se eu gritar aqui, liguem para a polcia de Portland imediatamente!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Oito
      
      Selena prendeu a respirao. Pelo telefone escutou Katie, fazendo o rudo de quem lambe os lbios. Logo Cris cochichou: 
      - Pssssiu, Katie!
      Ao mesmo tempo, Selena ouvia as passadas ressoando pesadamente na cozinha e, em seguida, vindo na direo da saleta.
      - Est vindo para c! sussurrou.
      - O que est acontecendo? indagou Katie. Quem ?
      De repente uma figura apareceu  porta.
      - U! exclamou Selena. O que voc est fazendo aqui?
      Era Tnia. A jovem entrou na saleta, batendo as grandes botas de esquiar no assoalho de madeira.
      - E voc? O que voc est fazendo aqui? indagou ela. Cad o carro? Achei que no havia ningum em casa, por isso fiquei espantada quando vi que a porta da 
frente estava destrancada.
      - Quem ? gritou Katie no telefone.
      -  minha irm, replicou Selena.
      Em seguida, virou-se para Tnia e disse:
      - Mame saiu com o carro. Ela est no Hospital St. Mary com V May. Ela fez uma operao de vescula ontem.
      - Quem? perguntou Tnia com voz estridente. Quem operou a vescula? Mame ou V May?
      - Ei, interrompeu Katie, voc no nos contou isso.
      - V May. Mame voltou hoje de manh para ficar com ela. Ela est passando bem.
      - Quem? quis saber Katie. Sua me ou sua av?
      - As duas, explicou Selena.  gente, posso ligar para vocs mais tarde?
      - Claro, respondeu Cris.  noite vamos estar na casa da Trci. Se voc quiser, pode ligar para l. Seno, daqui a uma semana vamos entrar em contato com voc 
de novo, para ver como tudo est indo e se voc vir aqui no recesso da Pscoa.
      - Est bem. Tchau, gente. Digam ao Douglas,  Trcia e ao Ted que mandei um abrao.
      - Pode deixar. Tchau, Selena!
      Ela desligou e se virou para Tnia, que estava de p, com as mos nos quadris.
      - Que  que est acontecendo? indagou ela em tom firme.
      Selena narrou-lhe tudo que havia acontecido.
      - Vou l para o hospital, falou Tnia.
      - Vou com voc, disse Selena, erguendo-se de um salto. Espere s eu calar o sapato.
      - Primeiro vou trocar de roupa, explicou a irm, que ainda estava com os trajes de esquiar.
      Em seguida foi saindo em direo  escada.
      - O que foi que aconteceu que voc voltou mais cedo? indagou Selena. Eu tinha entendido que voc iria ficar l at domingo.
      Tnia abriu a porta do quarto e logo soltou um berro:
      - Selena!
      - Que foi? Estou aqui.
      - Parece que voc no fez nada neste quarto depois que sa na quinta-feira.
      - No fiz no, Tnia. No tive tempo. O que aconteceu no seu passeio?
      - Nada! replicou a outra meio rspida. Resolvi voltar mais cedo, foi s. E parece que foi muito bom eu ter vindo. Como V May foi para o hospital?
      - Eu a levei de carro.
      - Voc matou aula?
      - Perdi aula, replicou Selena, calando uma meia e em seguida o tnis. Era uma situao de emergncia.
      Tnia no tinha um temperamento muito amistoso. Volta e meia brigava com Selena. Nesse dia, porm, parecia ainda mais irritadia. Selena resolveu no insistir 
em perguntar por que ela regressara mais cedo do que deveria.
      Tnia se aprontou em silncio e guardou sua roupa caprichosamente no armrio. Em seguida, colocou as botas de esquiar dentro do closet. Por fim as duas rumaram 
escada abaixo, Tnia na frente. Selena pegou sua mochila, ainda molhada por causa da chuva da manh. As duas saram, e Selena j ia fechar a porta quando se lembrou 
das flores que deixara na cozinha.
      - Espere! disse. Tenho de pegar as flores.
      Correu  cozinha e abriu o armrio para procurar uma sacola de plstico para carregar o buqu de lrios amarelos. Nisso, deu com os olhos num objeto muito 
importante, guardou-o, enrolou-o num pano de prato e guardou-o na mochila. Em seguida, apanhou uma sacola de plstico e colocou nela os lrios.
      Quando chegou l fora, Tnia j estava com o carro ligado e verificava a maquiagem no espelhinho que havia na parte de trs do tapa-sol. Selena sentou-se no 
banco ao lado dela, mas antes teve de pegar um saquinho de papel branco que a irm deixara sobre ele. Sentiu um leve cheiro de canela no ar. Ajustou o cinto de segurana, 
acomodou as flores no colo e em seguida olhou o saquinho de papel. Estava vazio.
      - O que  que linha aqui? indagou.
      - Onde?
      - Nesse saquinho de papel. Era um po doce da confeitaria Mother Bear?
      - Era. E da? perguntou Tnia, com a voz ainda um pouco irritada.
      - Nada. S que eu estava com muita vontade de comer um pozinho desses, s isso.
      Selena sentiu a boca cheia d'gua e engoliu a saliva. Se estivesse com outra pessoa qualquer, iria abrir o saquinho e comer as migalhas.
      'Guenta firme a, barriga! pensou. Prometo que muito breva vai chegar a um pozinho da MotherBear! 
      Chegando ao hospital, Selena foi mostrando a Tnia o caminho para o quarto onde V May se encontrava. A av estava dormindo e a me cochilava sentada na poltrona.
      - Vou colocar o vaso na mesinha, cochichou Selena, apontando para os lrios.
      A me de Selena remexeu-se, acordou e olhou para Tnia surpresa. As duas puseram-se a conversar em voz baixa, enquanto Selena procurava ajeitar os lrios na 
mesinha de cabeceira. Teve vontade de ouvir o que as duas estavam conversando. Tinha certeza de que a irm contaria  me qual fora o problema que houvera na estao 
de esqui, bem antes de revel-lo a Selena.
      - Queridinha! disse V May com a voz meio fraca.
      - Estou aqui, v, replicou a moa, indo para perto da cama, ainda com o vaso na mo. Olhe aqui. A Charlotte l da floricultura mandou esses lrios para a senhora. 
So lindos, no so?
      - Lrios! exclamou V May com expresso de satisfao. So minhas flores prediletas.
      - Vou coloc-los bem aqui, disse Selena. Mame e Tnia tambm vieram.
      As duas se aproximaram da cama e a av ergueu o brao pegando a mo de Tnia.
      - Nini! disse V May para Tnia, que se inclinou e deu-lhe um beijo na testa.
      V May criara apelidos para todos os netos. Apenas Selena fora presenteada com o que parecia mais "norma"". Na verdade, o "Nini" de Tnia fora obra de Selena. 
Quando ela era pequenina, no conseguia pronunciar "Tnia" direito. Diziaapenas "Ni". E V May o adotara. Os irmos mais novos de Selena tambm a chamaram de "Sissi". 
Contudo o apelido no pegara. V May sempre a chamara de "Queridinha" desde o dia em que ela nascera.
      - A senhora est se sentindo bem, v? indagou Tnia.
      - Estou bem, mas ainda meio indisposta, respondeu V May, tentando sentar-se.
      Tnia arrumou os travesseiros para ela.
      - A senhora passou por uma cirurgia sria, v, disse Tnia, sorrindo e alisando o cabelo branco e macio da av. Precisar pelo menos de mais uns dois dias 
para se sentir disposta. Eu trouxe uma loo hidratante para a senhora. Quer que faa uma massagem nos seus ps com ela?
      - Oh, quero, sim, Nini. Meus ps esto frios. E ser pode arranjar uma toalhinha mida e quente para eu passar no rosto?
      - Vou pegar, disse Selena, levantando-se e indo para banheiro.
      - Quer comer um pouco mais do seu almoo? perguntou a me.
      E as trs se puseram em ao, cuidando da querida paciente. E V May comeu todo o almoo. Selena sentiu alvio que pelo menos naquele momento ela se achava 
lcida. Quanto tempo ser que duraria essa fase de lucidez?
      - Que dia  hoje? quis saber V May.
      - Sbado, informou a me. 
      - U, Nini, no era pra voc estar esquiando?
      - Resolvi vir embora mais cedo, explicou Tnia. As coisas l no eram do jeito que eu pensava.
      - Voc chegou a esquiar? indagou a me.
      - Esquiei ontem o dia todo. A neve estava com um pouco de gelo e l no alto do monte tinha neblina demais para o meu gosto. Mas o dia foi bom.
      - Ento  noite  que houve o problema, deduziu V May, com olhos brilhantes e a mente bem alerta, evidentemente.
      Tnia deu uma olhada para a me e em seguida virou-se para a av. Ainda estava com o vidro de loo hidratante na mo.
      - , acho que posso dizer isso, replicou, colocando em seguida um pouco de loo numa das mos. Creio que preciso arranjar amigos que tenham o mesmo conceito 
que tenho sobre diverso.
      Selena ficou a pensar se a irm no iria aproveitar para falar sobre a questo da igreja que freqentavam. As duas j haviam conversado com os pais sobre o 
assunto, mas eles tinham demonstrado certa relutncia em abord-lo com V May. A famlia estava freqentando a igreja da av. Era uma igreja legal, pequena, tradicional. 
A maioria dos que iam l eram pessoas idosas, todas muito agradveis. E havia tambm alguns casais jnvens. Entretanto no havia unio de adolescentes nem de mocidade. 
Portanto, no existia nenhum tipo de reunio para eles, nem sequer classes de escola dominical.
      Nas vezes em que a famlia havia conversado sobre o assunto, tinham chegado sempre  mesma concluso.
      "Ns vamos  igreja  para adorar a Deus em grupo, a famlia toda, e no em busca de sociabilidade."
      Agora estavam as duas ali, Tnia e Selena, com o mesmo problema: sem amizades adequadas. Elas haviam tentado mostrar aos pais que, para jovens de 16 e 18 anos, 
a vida espiritual se acha muito relacionada com a necessidade de sociabilidade.
      - Precisamos arranjar uma igreja que tenha uma boa unio de mocidade, falou Selena, passando a toalha mida na testa da av.
      Assim que ela disse isso, viu sua me estampar no rosto uma expresso tensa, demonstrando que achava que Selena no deveria ter dito aquilo.
      - No se prendam por minha causa, comentou V May, fechando os olhos e esperando outro toque da toalha.
      Selena passou a toalha sobre os olhos da av e parou ali um pouquinho mais do que precisava, para poder fitar a me. Tnia tambm olhava para a me com expresso 
de expectativa. A me parecia surpresa. Em seguida, deu de ombros e fez que sim com a cabea.
      - De vez em quando, iremos  igreja da senhora, V May, disse Selena corajosamente, levando o assunto em frente. Mas a senhora no vai se importar se procurarmos 
uma igreja que tenha mais programao para os jovens, no , v? E pode ser at que algumas vezes a senhora queira ir  nossa greja tambm.
      - Para mim est bem, queridinha!
      Selena voltou a passar a toalha nos olhos da av e deu um sorriso maroto, j esperando ver uma expresso de admirao no rosto da me e da irm. Ela conseguira 
algo que seu pai nem tentara fazer: que V May concordasse em que procurassem outra igreja.
      A me e Tnia sorriam agradecidas. Selena se ps a secar o rosto da av com uma toalha enxuta e disse:
      - eu trouxe outra coisa para a senhora, v.
      Tirou da mochila o pano de prato todo enrolado e abriu-o lentamente, mostrando para ela o objeto: era a xcara de porcelana da av com o pires. Em casa, V 
May sempre utilizava uma xcara de porcelana para tomar caf, gua, suco, etc. Qualquer lquido que tomasse, era sempre numa xcara. E o de que ela mais gostava 
era caf.
      - Vamos chamar a enfermeira e pedir um bule de caf bem quente?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Nove
      
      
      - Acho que devamos tentar ir  igreja de Vacouver, disse Tnia.
      A jovem se achava recostada em sua cama, enquanto Selena conscienciosamente procurava guardar suas roupas espalhadas pelo quarto. A me se sentara na ponta 
da cama de Selena, que ainda estava desarrumada.
      -  muito longe, observou a me. Essa  a vantagem da igreja de V May. Fica s a trs quadras daqui. Alm disso, parece muito estranho ir a uma igreja que 
fica em outro estado.
      - Ah, que  isso? E s atravessar o rio para chegar ao estado de Washington. A gente no levaria mais que uns quinze minutos de carro. Ouvi dizer que o grupo 
de jovens da igreja de Vancouver  muito bom, explicou Tnia.
      - , interveio Selena, l na escola ouvi algum falar que tem uma igreja em Gresham que  muito boa tambm.
      - Gresham fica na direo oposta, disse a me, e a gente levaria uns vinte minutos de carro.
      - Est vendo? continuou Tnia, pegando os culos para ler um livro.  melhor irmos na de Vancouver. J liguei pra l e me informram que o culto  s 10:00h.
      - Queri que seu pai estivesse em casa para conversarmos sobre isso todos juntos. Talvez seja melhor irmos  igreja de V May amanh, pela ltima vez. Depois, 
no domingo que vem, comeamos a visitar outras igrejas.
      - Por qu? quis saber Selena.
      - Para qu isso? interveio Tnia. De qualquer jeito, V May no vai estar aqui. Essa  a melhor ocasio para mudar-mos de igreja.
      A me deu um suspiro e ergueu as mos como que entregando os pontos.
      - Estou com muito sono. No consigo discutir mais. Vocs duas decidam a. Vou aonde quiserem. Nesse momento quero mais  ir para a cama. Algum j verificou 
a secretria eletrnica?
      - No.
      - Estou preocupada com a Grace. Quando sa, ela no estava passando muito bem, e ainda por cima Daniel no ajuda nada.
      - Por que ele  sempre to irritadinho? indagou Selena. Ontem, quando telefonei, parecia que ele iria me morder.
      A me deu outro suspiro. Pensou um pouco e depois disse:
      - No momento, eles esto passando por alguns problemas. Ele foi despedido no ms passado e o dinheiro do seguro sade talvez no seja suficiente para pagar 
todas as despesas hospitalares da Grace. E depois voc sabe como os gmeos so levados. A famlia est passando por uma fase muito difcil.
      - A senhora queria ter ficado com eles? indagou Selena. Ns poderamos ter tomado conta de V May.
      A me abanou a cabea.
      - J estava combinado que a irm de Daniel iria para l hoje  noite. Ela vai se sair melhor do que eu, cuidando do Daniel e dos meninos. Se vocs ainda no 
agradeceram a Deus pelo pai que tm...
      - Quer dizer, em vez de ter um pai como Daniel? observou Selena.
      - Eu s estou dizendo que devem agradecer a Deus pelo pai que tm. Eu s vezes esqueo de como Harold  um bom marido e um bom pai.
      A me se levantou para sair, mas parou no meio do caminho.
      - Sabe de uma coisa? Vamos orar ns trs aqui, juntas, como eu fazia quando as duas eram pequenas.
      A me dirigiu-se para a cama de Tnia, e Selena a seguiu. Sentaram-se de frente umas para as outras, com as pernas cruzadas  moda oriental, e deram as mos. 
Oraram por V May, pelo pai e os irmos, pela tia Grace e pelo tio Daniel. A me engasgou um pouco quando orou por Grace e Daniel. Selena tambm sentiu um aperto 
na boca do estmago quando ela pediu a Deus que salvasse o casamento deles e protegesse os gmeos.
      Em seguida a me fez uma petio cheia de ternura. Orou pelo futuro marido de Tnia e de Selena. Pediu a Deus que ambos entregassem a vida a Deus, se  que 
ainda no haviam entregado, que se tornassem homens de Deus e amassem muito a Tnia e Selena, bem como aos filhos que viessem a ter. E ao dizer tais palavras, chorou.
      Selena tambm sentiu os olhos se encherem de lgrimas, no momento em que disse "Amm". Sabia que a me fazia essa orao havia j muitos anos, assim como V 
May tambm orara pelas pessoas com quem seus sete filhos iriam se casar. A me de Selena mesmo fora a resposta da orao que V May fizera por seu filho Harold. 
Desde pequena, Selena tinha conhecimento de que seus pais e sua av oravam por seu futuro marido. J at se acostumara com isso.
      Nessa noite, porm, fora diferente. Nesse momento, a orao de sua me parecera revestida de um novo vigor. Interiomente, a jovem reconheceu que aquela mulher 
que ali estava, de mos dadas com ela, era uma poderosa intercessora. Sentiu que Deus iria enviar gloriosas bnos para ela por causa da orao de sua me.
      - Em nome de Jesus, que assim seja! disse a me, encerrando.
      - Que assim seja! repetiu Selena, abrindo os olhos ainda molhados de lgrimas.
      - Amm! disse Tnia.
      - Eu amo muito as duas! disse a me, abraando-as e dando-lhes um beijo no rosto.
      - Eu tambm te amo, me! falou Selena, beijando-a tambm. E amo voc tambm, disse para Tnia, sorrindo e abrindo um pouco o semblante.
      A irm recebeu o beijinho de Selena, mas no disse nada.
      - Durmam bem! falou a me, bocejando. Se at as 9:00h eu no acordar, podem me chamar.
      - Ento podemos ir  igreja de Vancouver? indagou Tnia.
      - Pra mim est bem, replicou Selena.
      - Pode ser, concordou a me, bocejando de novo e caminhando para a porta.
      Selena retirou seus pertences de cima da cama e entrou debaixo das cobertas. Sentiu que Tnia lhe dirigiu um olhar de crtica.
      - Que foi? indagou, sem olhar para a irm.
      - No vai guardar seus objetos no?
      - Amanh! respondeu, imitando "Scarlett O'Hara", a herona de "E o Vento Levou..." Vou resolver isso amanh
      E o amanh acabou se prolongando por mais alguns dias. Afinal, na tera-feira, ela resolveu encarar a pilha de roupas. Dessa vez veio decidida a arrumar tudo. 
Tnia estava insistindo com ela para melhorar a aparncia do quarto.
      Nos ltimos dias, as duas estavam se dando muito bem. Ambas haviam gostado bastante da igreja de Vancouver. E na segunda-feira, Tnia tinha at permitido que 
Selena pegasse o "querido" carro dela para ir visitar a av no hospital enquanto ela prpria se aprontava para ir trabalhar.
      V May estava melhorando sensivelmente. O mdico havia dito que, se tudo corresse bem durante o resto da semana, ela poderia voltar para casa no sbado. A 
velha senhora passava a maior parte do tempo dormindo. Contudo, sempre que estava acordada, sua memria estava boa.
      Selena separou as roupas limpas das sujas. Em seguida, pegou as sujas e dirigiu-se para o poro da casa, onde ficava a mquina de lavar. Assim que acabou de 
colocar nela a primeira trouxa, escutou a voz do pai dentro de casa. Desde que voltara do passeio, ele passara boa parte do tempo no hospital, com a me dele. Os 
dois irmos menores, Kevin e Dilton, como sempre, faziam muito barulho. Parecia que tudo voltara ao normal.
      Nem tanto. Embora a crise relacionada com V May estivesse solucionada, os problemas de Selena ainda no estavam. Ainda no conseguira emprego nem arranjara 
amigos. Ademais, queria muito ir  Califrnia no recesso da Pscoa. Para isso, porm, precisava da permisso do pai, que agora j retomara a rotina de sempre. Ento 
era o momento de lhe pedir.
      Selena subiu a escada do poro de dois em dois degraus. O pai estava na cozinha lavando uma ma, na qual, em seguida, deu uma dentada.
      - Oi, meu paizinho querido e maravilhoso! principiou Selena, abraando-o pelos ombros.
      - Eh...quanto  que voc est querendo? indagou o pai sem pestanejar.
      Selena afastou-se dele.
      - Por que o senhor acha que vou pedir dinheiro?
      - Voc vai, no vai?
      - Bom, no exatamente!
      - Seja o que for que vai pedir, vou ter que desembolsar algum dinheiro, no vou?
      Selena passou os braos novamente em torno do pai e encostou a cabea no ombro dele.
      - Como  que o senhor consegue ser to esperto e maravilhoso assim, meu paizinho querido e maravilhoso?
      Ele fitou a filha, que piscou vrias vezes com ar de gozao. Harold Jensen caiu na risada e quase se engasgou com um pedao de ma.
      - , parece que teremos uma conversa sria, disse ele ainda rindo.  melhor irmos para o escritrio.
      - Pai! gritou Kevin l do quintal, com sua vozinha aguda. O senhor pode vir aqui nos ajudar?
      - Que  que voc quer?
      - A roldana da corda da casa na rvore quebrou.
      - Ah, eu vou a daqui a uns... replicou ele e parou, olhando para Selena. Quanto tempo? perguntou para a filha. Vinte minutos? Meia hora? Trs horas?
      - Vinte minutos, respondeu a jovem. Meu pedido  muito simples.
      - Vou a daqui a uns vinte minutos, respondeu ele para o menino. Esperem eu chegar. No tentem consertar sozinhos no, ouviu?
      - Ns esperamos, falou Dilton, o irmo de oito anos, sempre eficiente.
      - Est bom, concluiu o pai em voz baixa. Deu outra mordida na ma.
      - Vamos l, disse ele para a filha, conduzindo-a para a saleta que chamava de seu escritrio.
      Era o cmodo de que o pai mais gostava. Uma das paredes tinha uma estante que ia do cho ao teto e estava repleta de livros. Muitos deles eram velhos volumes 
da coleo de V May, que ela fora adquirindo desde jovem. Alguns eram escritos em dinamarqus, a lngua nativa da av. O aposento tinha um cheiro peculiar de mofo, 
que lhe dava um ar de importncia e ao mesmo tempo "caseiro". Aqueles livros eram como amigos silenciosos, sempre dispostos a "dar" algo para os outros, sem exigir 
nada em troca, a no ser, vez por outra, uma limpezinha.
      Selena se instalou na sua poltrona predileta, que se achava encostada em um canto, perto da porta de folha dupla que dava para o jardinzinho dos fundos. Quando 
a luz do sol entrava ali, batia direto na cadeira. Um gato ali iria adorar deitar-se nela para tomar seu banho de sol. Naquele momento, o sol no estava batendo 
l, mas mesmo assim Selena se acomodou nela e estendeu as pernas, colocando os ps no descanso que combinava com a poltrona.
      Seu pai sentou-se na sua poltrona giratria que se achava junto  escrivaninha, e virou-se para a filha.
      - Muito bem, disse, continuando a comer sua ma. Pode "atirar"!
      - Eu queria ir visitar as amigas que conheci na Inglaterra. Elas me convidaram para passar o recesso da Pscoa com elas. Posso ir de avio at San Diego ou 
ento para Orange County. Vou pagar todas as minhas despesas, s que ainda no arranjei trabalho. Estou a zero!
      - Ah, replicou o pai calmamente.  s isso?
      - Tentei arranjar um emprego na floricultura, mas a mulher disse que era para trabalhar aos domingos e que eu precisava ter carro prprio. Ainda no procurei 
em nenhum outro lugar, mas quero ver se arranjo um servio aqui por perto, para no depender de carro.
      - Muito sensato, comentou o pai.
      - E a? Posso ir?
      - Primeiro vou conversar com sua me sobre isso, mas acredito que no haver problema, no. Mas numa coisa voc tem razo: ter mesmo de arranjar o dinheiro 
para pagar a passagem. Essa viagem que sua me teve de fazer outro dia a Phoenix estava fora do nosso oramento. Vamos fazer um trato: voc se esfora para conseguir 
um trabalho e eu vou tentar encontrar um vo que fique bem barato. Voc tem preferncia por algum aeroporto? Suas amigas vo l peg-la, no vo?
      - Claro! E o aeroporto no faz muita diferena. A cidade delas fica mais ou menos no meio dos dois.
      - O.k.! disse o pai. Ento vou comear a ver preo de passagens.
      Selena deu um sorriso alegre.
      - Muito obrigada, meu paizinho querido e maravilhoso!
      - E, no fique muito confiante no. Isso ainda est na dependncia de voc poder pagar a passagem.
      - Eu sei, mas muito obrigada por ser meu pai.
      - De nada! replicou ele, abrindo a porta e dirigindo-se para a casa na rvore. Ah, e a propsito, continuou ele, virando-se ligeiramente, voc j deu uma olhada 
na correspondncia que est na escrivaninha? Tem uma carta l para voc.
Captulo Dez
      
      Selena saltou da poltrona e pegou a pilha de correspondncia que estava sobre a mesa. Conta de gua, boletos para pagar, propagandas, etc. Afinal deu com um 
envelope onde havia o nome Selena Jensen escrito em letras maisculas bem gradas. Imediatamente reconheceu a caligrafia. Ela recebera apenas uma carta com aquela 
letra, mas j a lera umas cinqenta vezes ou mais. Alis, essa carta estava guardadinha debaixo do seu travesseiro. Agora chegava a "irm gmea" dela.
      Segurando o envelope com firmeza, voltou  sua poltrona e se ps a vir-lo e revir-lo nas mos, antes de abri-lo. Quando ser que Paul escreveu? Antes daquela 
hora que me viu, no sbado, ou depois? Ser que escreveu para debochar de mim?
      No conseguindo mais conter a curiosidade, abriu a carta com gestos cuidadosos. Dentro havia apenas uma folha, com uma cartinha curta, de poucas linhas. A 
escrita era mesmo caracterstica de Paul, meio manuscrita meio em letra de forma, em caracteres bem grandes. Dizia o seguinte:
      
      Minha cara princesa dos lrios,
      
      Estou querendo saber uma coisa - e obviamente no  da minha conta - mas voc pegou pneumonia? Se tiver pegado, devo lhe mandar umas flores? Ou ser que aqueles 
lindos lrios iro durar todo o seu perodo de convalescena?
      Sinceramente,
      
      Um Mero Observador.
      
      Selena leu a carta quatro vezes, e a cada vez interpretou-a de forma diferente. Na primeira, achou-a engraada. Na segunda, pensou que talvez fosse carinhosa. 
Na terceira, ela lhe pareceu meio mal-educada. Na quarta vez em que a leu, ficou furiosa.
      Foi at a escrivaninha, pegou uma folha de caderno e se ps logo a responder, antes que pudesse mudar de idia.
      
      Fique voc sabendo, Sr. Sabicho, que minha av est internada. Na sexta-feira, ela recebeu um telefonema, informando de que teria de fazer uma cirurgia de 
emergncia, e eu estava sozinha em casa com ela. Passei a noite ao lado dela no hospital. Naquela hora em que voc me viu, eu estava voltando de uma floricultura 
onde tinha ido fazer uma entrevista para ver se arranjava um emprego. A dona da loja me deu aqueles lrios para minha av, pois so as flores prediletas dela.
      Agora, respondendo s suas perguntas:
      , no  mesmo da sua conta.
      No; no peguei pneumonia.
      No; no quero nenhuma flor sua. J disse que aquelas fores eram para minha av que, como falei, est internada.
      E caso voc esteja curioso, devo dizer que no consegui o emprego no.
      E mais uma coisa: ao assinar uma carta, s escreva "sinceramente" se estiver sendo sincero mesmo. Irritadamente,
      
      Selena.
      
      Em seguida, com receio de se arrepender, Selena dobrou o papel, enfiou-o num envelope e procurou um selo na gaveta da mesa. Subiu correndo para o quarto e 
pegou a "amada" cartinha que estava debaixo do travesseiro. Deu uma espiada nela para ver o nmero da caixa postal e em seguida amassou-a e atirou-a na direo da 
cesta de lixo. Errou. Ela foi parar no cho, perto de uma pilha de cadernos escolares.
      Desceu a escada de galope e gritou para o pai que se achava no quintal:
      - Pai, vou l no correio levar uma carta!
      - Espere a, Selena, replicou o pai.
      Ele estava num barraco que havia nos fundos, onde instalara uma oficina. Dentro dele, havia ferramentas de ltimo tipo. Exteriormente, porm, parecia a casa 
da histria "Joozinho e Maria". O pai chegou  porta enxugando as mos numa toalha. Enfiou uma das mos no bolso e pegou uma nota.
      - Voc pode dar um pulo na confeitaria Mother Bear e comprar alguns daqueles pezinhos de canela? Prometi  sua av que levaria uns para ela amanh, para o 
caf.
      - O senhor no imagina com que prazer vou fazer isso, pai, respondeu Selena. No precisa me dar dinheiro no.
      - U, pensei que voc estava sem dinheiro, a zero.
      - Mame disse que, enquanto ela estivesse viajando, eu poderia pegar na gaveta da escrivaninha. Usei daquele dinheiro para comprar algo pra comer e para pr 
gasolina no carro. Ainda tenho um pouco aqui que d para comprar os pezinhos.
      - , disse o pai sorrindo, acho que tenho de procurar outro esconderijo para meus trocados.
      - Vem, pai! gritou Kevin de dentro da casa na rvore.
      - Quer ir com meu carro? perguntou o pai  filha.
      - No, disse ela, estou precisando caminhar um pouco. Volto logo!
      E Selena saiu andando com passadas largas, segurando firme a carta. Ainda bem que a agncia do correio no era muito longe, seno o envelope iria ficar molhado 
pelo suor das mos. Entrou na agncia e, com um movimento brusco, enfiou a carta na abertura devida.
      Imediatamente arrependeu-se do que fizera. Ficou em p, parada, e deu uma espiada para um lado e para outro para ver se algum a observava. Ser que daria 
para pegar a carta de volta? Passou a mo na abertura, mas logo constatou que no conseguiria retir-la. No havia mais jeito; o que estava feito, estava feito.
      Sentiu que precisava de uma compensao - um pozinho de canela, da confeitaria Mother Bear. Caminhou as sete quadras que faltavam num passo de cooper. Assim 
que entrou na loja, sentiu-se aliviada. Era como se tivesse apostado corrida com a raiva e a mgoa e tivesse ganhado delas.
      A confeitaria estava quase vazia. Havia apenas trs pessoas sentadas numa das mesas do canto, realizando uma espcie de reunio qualquer. Estavam tomando um 
caf bem cheiroso. O aroma de canela no era to forte como estivera no sbado, mas estava no ar, permeando todo o aposento.
      - Ainda est atendendo? indagou Selena para uma senhora gorducha, de rosto rosado, que usava um uniforme branco e naquele momento limpava o balco.
      - S mais cinco minutos, explicou ela, olhando para o relgio da parede, que marcava 17:55h.
      Era um relgio grande, que tinha o formato de um urso. O mostrador ficava na barriga do animal.
      - Uhmmm! Que bom que cheguei a tempo! exclamou Selena. Quero uma caixa com pezinhos de canela.
      A mulher pegou uma caixa apropriada para embalar os pezinhos e indagou:
      - Mais alguma coisa?
      Selena se lembrou de seu irmo, Cody. Sempre que a garonete ou vendedora lhe fazia essa pergunta, ele replicava:
      "Uma passagem para o Hava! Pra 'viagem', por favor!"
      Ento a jovem sorriu e respondeu:
      - Uma passagem para San Diego!
      A mulher fitou-a com ar de quem no entendeu, mas em seguida sorriu.
      - Est ficando cansada desse nosso clima chuvoso, no ? observou ela. Querendo um pouco de sol!
      Selena fez que sim.
      - Na verdade, explicou, estou querendo visitar umas amigas l, no recesso de Pscoa. E preciso s do dinheiro para comprar a passagem. E pra isso tenho de 
arranjar um emprego.
      Selena se deu conta de que estava falando de sua vida com uma pessoa desconhecida e logo ajuntou:
      - Mas agora o que quero  apenas uma caixa desses seus pezinhos. Estou h vrios dias com muita vontade de com-los.
      A mulher pegou o dinheiro que a jovem lhe estendeu e fez o registro na caixa.
      - Mas voc no vai comer tudo sozinha, vai?
      - Farei o possvel para no comer tudo, disse ela, vendo a mulher colocar a caixa numa sacola de papel. Tenho que deixar pelo menos um para V May, que est 
internada e esperando um pozinho desses.
      - Voc se refere a May Jensen?
      - . Ela  minha av.
      - Ah, que coincidncia! E como  seu nome?
      - Selena!
      - Voc  filha de...
      - Harold e Sharon.
      - No! exclamou a mulher, juntando as mos  frente, como faz uma cantora de pera. Meu irmo foi colega de classe do Harold. Quando eu era menina, era apaixonada 
por seu pai. Diga pra ele que voc conversou comigo. Meu nome  Amlia Kraus. Em solteira, era Amlia Jackson. Fale com ele pra dar uma passada por aqui uma hora 
dessas.
      - Acho que ele j veio aqui, falou Selena.
      - Ah, pode ser. Geralmente no sou eu quem atende no balco. Eu e meu marido somos os donos desta confeitaria. Mas ultimamente tem dado tanto movimento, que 
tive de voltar a atender. E sua av, como est?
      - Est bem. Ela fez uma cirurgia de vescula.
      -  mesmo? Coitada! No esquea de falar com seu pai para passar por aqui. D minhas lembranas pra ele.
      - Vou dar, replicou Selena, pegando o pacote. Obrigada! Przer em conhec-la!
      - Igualmente, Selena! replicou Amlia Kraus.
      A jovem foi saindo, e a mulher veio atrs dela at a porta, virando ento a placa e deixando  vista a palavra "Fechado".
      - Tchau! disse.
      Selena saiu para a rua fria, onde logo se viu cercada pelo cheiro de cho molhado e da fumaa do cano de descarga dos carros. Era um contraste muito forte 
com o ambiente da confeitaria, onde se sentia o cheiro gostoso da canela e do caf. Contudo no deu mais que quatro passos quando lhe ocorreu um pensamento bvio. 
Virou-se e voltou em direo  loja. Assim que se aproximou viu a porta se abrindo e D. Amlia aparecendo. As duas se puseram a falar ao mesmo tempo. Ambas riram.
      - A senhora primeiro, disse Selena.
      - Eu pensei uma coisa, falou a mulher. Voc disse que estava precisando de um emprego e...
      - Tive a mesma idia, interrompeu Selena.
      - Ento entre aqui, filha, disse D. Amlia, abrindo mais a porta. Acho que foi a providncia divina quem a trouxe aqui!
      
      
Captulo Onze
      
      - Cheguei! gritou Selena, entrando em casa e batendo a porta para fech-la.
      - Estamos aqui! disse a me na sala de jantar.
      A jovem colocou o embrulho com os pezinhos sobre um mvel da copa e foi para onde estavam os outros. A me havia preparado seu "jantar rpido": batata assada, 
brcolis cozidos ao vapor com molho de queijo.
      - Adivinhem s! falou Selena, quase sem flego.
      Todos olharam para ela com expresso de expectativa.
      - Voc encontrou um imitador do Elvis que acabou de chegar de Marte e se alimenta de crebros humanos, interveio Dilton.
      - , prosseguiu Kevin, e ele comeu o seu e continuou com fome!
      - Meninos! repreendeu o pai. O que foi que aconteceu, Selena?
      - Ela estava to entusiasmada que nem mesmo as piadas idiotas de seus irmos diminuram sua alegria.
      - Arranjei um emprego! Na confeitaria Mother Bear! Comeo na quinta-feira. Vou trabalhar de 4:00h s 6:00h, s teras e quintas-feiras, e das 8:00h s 4:00h, 
aos sbados.  perfeito! E a dona da loja, Amlia Kraus, conhece o papai. O nome de solteira era Amlia Jackson.  Disse para o senhor ir l uma hora dessas. E me 
deu mais uma caixa de pezinhos de canela. O melhor de tudo, porm, disse que posso folgar no recesso de Pscoa, continuou Selena, fazendo uma pequena pausa para 
respirar. E ela  crente. D pra acreditar? Eles no abrem a confeitaria aos domingos.  incrvel, no ?
      - Incrvel mesmo! concordou a me.
      - D. Amlia disse que foi a "providncia divina". Ela falou que Deus opera de modo que a gente no entende, ou algo mais ou menos assim.
      Selena espetou o garfo numa batata da travessa e colocou-a em seu prato. Em seguida partiu-a ao meio com a faca, deixando escapar o vapor quentinho.
      - Nosso Deus  um Deus maravilhoso! exclamou o pai. Ele vivia repetindo essa frase, que tambm era a letra de um corinho que ele gostava de cantar.
      - Acho bom eu comear a verificar preos de passagens areas, continuou ele.
      - Aonde  que ela vai? quis saber Dilton.
      - Dilton, por favor, no fale com a boca cheia, interveio a me. Selena quer ir  Califrnia na Pscoa para visitar umas amigas, explicou.
      - Ento quer dizer que a senhora deixa, me? indagagou Selena, sem conseguir conter a empolgao.
      - Claro. Com as condies que seu pai estabeleceu, Tnia, que ainda no dissera nada, baixou o garfo no prato e indagou:
      - Ser que tem mais algum aqui incomodado com o fato de que Selena j foi  Inglaterra e agora vai  Califrnia, enquanto ns ficamos em casa, ou sou s eu?
      - Ns fomos acampar, interps Kevin.
      - , falou Dilton, e voc foi esquiar. E Selena ficou sozinha em casa naquele dia.
      Tnia ergueu os olhos num gesto de impacincia.
      - , comentou, mas o meu passeio fracassou.
      - Se voc quiser, pode vir comigo para San Diego, falou Selena.
      - timo! exclamou Tnia. E o que eu ia ficar fazendo l? Passear com voc e suas amiguinhas?
      - Elas no so "amiguinhas", explicou Selena. Todas elas so mais velhas que eu. A Katie e a Cris so da sua idade. A Trcia tem mais de vinte anos e o Douglas 
e o Ted tambm.
      Tnia olhou para ela espantada, como se o que ela acabara de dizer fosse uma grande novidade.
      - E por que elas a convidaram para ir l? 
      - So minhas amigas. Tratam-me como se eu fosse da idade delas, replicou Selena, sentindo o entusiasmo arrefecer um pouco por ter de se defender perante a 
irm.
      E realmente no via diferena entre ela, Katie, Cris e os outros, embora eles fossem mais velhos. Contudo, com Tnia, sempre se sentia um pouco inferiorizada.
      - Que bom que voc arranjou o emprego! exclamou a me, mudando de assunto. Acho que vai gostar muito de trabalhar l.
      - Pra mim no dava, comentou Tnia, erguendo-se da mesa e indo limpar os restos de seu prato no lixo. Engordaria 10 quilos s de sentir o cheiro daqueles pezinhos. 
Que pena que no deu certo na floricultura. Bem menos engordante.
      Selena nunca tivera de preocupar-se com excesso de peso. Herdara da me o metabolismo rpido e, alm disso, sempre fora muito ativa fisicamente, queimando 
logo todas as calorias que acumulasse com doces. Tnia, no. Da famlia, era a que mais se preocupava em contar as calorias de tudo que comia. Sendo filha adotiva, 
por diversas vezes comentara que provavelmente sua verdadeira me fosse uma "pipa".
      - Podemos comer um pozinho de canela de sobremesa? indagou Dilton.
      Com oito anos, o garoto era o retrato do pai, tendo herdado inclusive o gosto para doces.
      - No, replicou a me, vamos deix-los para o caf da manh. Algum pretende ir visitar V May hoje  noite?
      - Eu posso dar uma chegada l, informou o pai. Vocs querem ir comigo, meninos?
      - De quem  a vez de cuidar das vasilhas? Quis saber a me.
      - De Selena, respondeu Kevin.
      - Claro! resmungou a jovem.
      Ela se levantou e recolheu os pratos para limp-los e coloc-los na lava-louas. Jogou alguns deles na pia, produzindo um barulho caracterstico de loua no 
bojo de ao.
      - Calma a! recomendou a me em tom firme.
      - Estou calma! replicou Selena.
      No sabia por que detestava fazer aquele servio de passar uma gua nas vasilhas para p-las na mquina. Era to simples. Ademais a me sempre ficava ao lado, 
auxiliando-a, e as duas batiam bons papos nesses momentos. Entretanto quando lhe diziam que era sua vez de cuidar das vasilhas ela tinha uma reao interior. Era 
como se algum, l dentro dela, aspertasse a tecla da raiva. E se, ao abrir a mquina ainda encontrasse nela as ltimas louas que tinham sido lavadas, ento o "raivmetro" 
subia mais uns trs graus. Sabia que era um grande tolice sentir isso; mas sentia. E nessa noite, o "raivmetro", que estava operando a todo vapor, subiu diversos 
graus assim que a abriu. Estava cheia de vasilhas.
      No levou mais que uns quinze minutos para fazer o servio, e, como sempre, a me lhe agradeceu pela ajuda.
      - De nada! resmungou Selena, subindo em seguida para fazer o dever de casa. 
      Chegando ao quarto, viu que Tnia j estava sentada  mesa, fazendo um trabalho para seu curso da faculdade. Sem dizer nada, Selena afastou alguns objetos 
que estavam sobre sua cama e sentou-se nela. Em seguida, ps-se a ler um livro didtico, daqueles que so distribudos pelo governo. E o texto era muito aborrecido.
      As duas irms permaneceram em silncio durante quase uma hora. Afinal Tnia disse:
      - Voc estava falando srio quando sugeriu que eu fosse a San Diego com voc?
      Selena hesitou antes de responder. Fizera o convite num momento de descontrao. Na verdade, a ltima pessoa que queria ao seu lado no recesso de Pscoa era 
Tnia. E, em s conscincia, nunca iria querer que a irm entrasse para o seu amado grupo de amigas. Assim que elas vissem Tnia, largariam Selena de lado.
      - Por que pergunta? indagou cautelosamente.
      Tnia virou-se para Selena. Tinha os olhos cheios de lgrimas.
      - S queria saber se voc disse aquilo pra valer.
      - Claro, replicou Selena, imediatamente comovida com a tristeza da irm.
      Sabia que Tnia tambm estava tentando arranjar amigas. E, ao que parecia, isso era o nico ponto que as duas tinham em comum. A irm no falou mais nada. 
Virou-se de novo para os livros e continuou seu trabalho.
      - E ento? indagou Selena. O que voc diz? Quer ir comigo ou no?
      - No tenho certeza, replicou a outra em voz baixa. Depois eu lhe falo.
      - Selena teve vontade de jogar um travesseiro na irm. Como se no bastasse ter chamado Tnia para ir com ela num impulso de momento, agora esta no decidia. 
Ela poderia pelo menos responder que sim ou que no, para Selena saber logo se iria ficar arrasada ou alegre. No gostava nem um pouco desse joguinho de indeciso. 
Contudo essa atitude - fazer os outros esperarem - era mesmo tpica de Tnia.
      Selena sabia que o melhor a fazer, quando se sentia irritada e frustrada, era abrir a Bblia e l-la at chegar a uma soluo. Pegou na mesinha de cabeceira 
sua preciosa Bblia com sobrecapa de couro e abriu-a no ponto marcado. Seu "marcador" era um papel de embrulho de chocolate, j meio amassado. Ps-se a ler a partir 
do lugar onde parara, dias atrs.
      No seu momento devocional pessoal, Selena tinha o costume de ler sempre um mesmo livro at o fim. Algumas vezes, lia apenas alguns versculos. Em outras, lia 
vrios captulos. E quando, por acaso, passava um dia sem estudar a Palavra, no tinha nenhum sentimento de culpa. No dia seguinte, simplesmente continuava de onde 
havia parado. Alm disso, tinha um caderno onde anotava os pensamentos que lhe ocorriam durante a leitura.
      No momento, encontrava-se no livro de Isaas, cap 26. Fazia mais de uma semana que estava lendo Isaas. De propsito, saltara alguns dos captulos iniciais 
do livro. Contudo os trechos que lera nos dias anteriores eram bem interessantes, e ela sublinhara algumas passagens.
      Nessa noite ela principiou lendo devagar e parou no versculo 3. "Tu, Senhor, conservars em perfeita paz aqueles cujo propsito  firme; porque ele confia 
em ti."
      Selena deu as costas para a irm e releu o verso. Ficou a se indagar at onde ela confiava em Deus e at onde tentava ela mesma resolver as situaes difceis 
da vida. Continuou a ler. O trecho que lhe chamou a ateno a seguir foi uma frase do versculo 9: "Com minha alma suspiro de noite por ti..."
      , no sei se te desejo assim, Deus. Mas eu gostaria. Quero confiar em ti todos os dias; e com relao a todos os aspectos da minha vida.
      Releu a frase.
       Pai, quero suspirar por ti com minha alma. Quero que o Senhor esteja presente em tudo que me diz respeito; no apenas nos momentos problemticos. Quero o 
Senhor em minhas noites de inquietao. Quero o Senhor em meus sonhos.
      Contudo, em vez de reconfortada e tranqila, Selena se sentia contrariada. No por causa de Tnia. J se acostumara com o fato de seu relacionamento com a 
irm ser sempre tumultuado. Estava chateada era com a carta que enviara a Paul. Tinha-a escrito no impulso do momento e colocara nela palavras malcriadas. Se antes 
havia alguma possibilidade ter um relacionamento com o rapaz, aquela carta, com certeza, iria atrapalh-la. E agora ela no poderia mais corrigir o erro. 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Doze
      
      Selena enfiou a mo no pacotinho de chips e pegou mais um. Era sabor de cebola, o seu predileto. Com a outra mo segurava um exemplar do jornalzinho da escola. 
Lia a ltima pgina, onde se encontravam os anncios. Leu as informaes ao p da pgina.
      "Todos os anncios e notas pessoais tm de ser entregues at sexta-feira ao meio-dia, no setor de jornalismo. Tarifa: 2 centavos por palavra. Favor trazer 
o dinheiro trocado."
      Procurando desligar-se do barulho da cantina, pegou um pedao de papel e se ps a escrever algumas palavras. Quando Katie lhe falara sobre a possibilidade 
de colocar um anncio no jornal para arranjar amigos, achara a idia ridcula. Hoje, porm, sentada sozinha na mesa onde estava lanchando, comeou a achar que talvez 
ela tivesse algum sentido.
      "Precisa-se", escreveu. "Preciso de algum para lanchar comigo."
      Riscou essa frase e se ps a criar outra.
      "Procurando um amigo? Tambm estou." 
      Saltou algumas linhas e mais abaixo tentou de novo.
      "Garota novata na escola procura um modo de entrar em uma das 'panelinhas'. Aceito sugestes."
      - Muito fcil, disse uma voz masculina atrs dela.
      Selena agarrou depressa a folha de papel e virou-se para dar um olhar irado a quem tivesse dito aquilo. 
      - Oh! falou o rapaz. Minha sugesto  que voc se abra um pouco.
      Era o Ronny, o primeiro aluno que Selena conhecera no Colgio Royal. Fora ele quem a levara a dar uma volta pelas dependncias da escola para que a moa a 
conhecesse. Por diversas vezes, depois disso, ele tentara bater papo com ela. Selena respondia sempre por monosslabos, dava de ombros e se afastava. E embora ela 
tivesse feito algumas tentativas de conversar com os colegas, na maior parte do tempo ficava calada se mantinha sozinha.
      De repente compreendeu como os outros alunos deviam v-la. Parecia que o seu "raivmetro", que entrava em operao quando tinha de cuidar da loua, tambm 
funcionava na escola. No havia se esforado muito para se enturmar com os colegas.
      Ronny sentou-se ao lado de Selena, embora ela no o houvesse convidado. O rapaz sacudiu a cabea, jogando para trs o cabelo louro e comprido.
      - Sabe de uma coisa, Selena Jensen? comeou ele. Precisamos ter uma conversinha.
      -  mesmo? indagou ela em tom irnico.
      -  mesmo, replicou ele. J est na hora de voc comear a viver.
      Selena sentiu uma pontada de raiva. E Ronny deve ter percebido isso no rosto dela, pois inclinou-se para mais perto dela e deu um sorriso meio torto. Selena 
notou uma pontinha de barba a lhe brotar no queixo.
      - Posso comear? falou ele.
      Selena fez que sim.
      - Ento quer ser minha amiga? indagou ele, com expresso sincera nos olhos claros.
      - Por qu? Voc j tem tantos amigos!
      - Est vendo? indagou ele, dando um tapa na mesa para enfatizar o que dizia. Seu problema  esse. No deixa ningum se aproximar de voc. Por que est sempre 
to "armada"?
      - No sei, replicou Selena com toda sinceridade.
      Sentiu lgrimas se formando contra sua vontade Imediatamente piscou e engoliu em seco para que elas no lhe rolassem pelo rosto.
      Ronny continuou a fit-la ainda com a mesma expresso. Nesse momento, a sineta tocou, indicando o fim do intervalo, e os alunos comearam a se levantar para 
sair da cantina. O rapaz, porm, no se mexeu. Permaneceu sentado, olhando para Selena, aguardando que ela falasse. A jovem desviou o olhar, sentindo-se um pouco 
incomodada. Por um lado, tinha vontade de se abrir com ele, dizer que no se sentira bem aceita na escola, que tinha a sensao de que era uma estranha. Bem l no 
fundo, porm, reconhecia que noventa por cento da culpa era dela. Talvez at mais. Ela prpria assumira uma atitude bastante retrada.
      E o mais estranho em tudo isso era que tal conduta no tinha nada a ver com sua personalidade. At alguns meses atrs, ela sempre fora um tipo de pessoa que 
procurava as amizades. Na escola onde estudara e na igreja que freqentava, ela  que fora o "Ronny". Era ela quem tinha a iniciativa de fazer com que os recm-chegados 
se sentissem bem acolhidos. Agora, porm, era a novata, e no sabia agir nessa situao.
      - Bom, quando voc resolver comear a entrevistar pessoas para o cargo de "amigo", falou o rapaz, lembre-se de que sou um dos candidatos.
      Selena sentiu vontade de sorrir. Reconhecia que essa atitude de no querer conversar abertamente com ele era tola e infantil.
      - Ronny, principiou,  muito difcil...
      - No, interrompeu ele. No  no. Voc nem tentou...
      Selena pensou que seria muito bom se soubesse umas palavras mgicas para melhorar a situao. Queria uma palavra que fosse como uma "chave" para reabrir a 
conversa um outra hora.
      De repente, lembrou-se de algo que ouvira num dos cultos a que assistira quando estava na Inglaterra, na viagem missionria. Ela anotara no caderno e, dias 
atrs, havia relido essa anotao. O pregador dissera o seguinte: "No final das contas, quando queremos solucionar problemas em nosso relacionamento com outros, 
existem apenas duas palavras que podemos dizer. A primeira  'Perdo', e a segunda  'Obrigado!' Se dissermos a primeira com freqncia durante o curso da vida, 
quando estivermos em nosso leito de morte, s precisaremos dizer a segunda."
       Ronny, disse Selena prontamente, perdoe-me.
      - Tudo bem, replicou ele. Mas perdoar de qu?
      - Por eu ter sido to desagradvel. Quero ser sua amiga sim.
      Ronny deu aquele seu sorriso meio torto.
      - Quer dizer que estou empregado?
      - Isso! respondeu ela, erguendo-se e estendendo-lhe a mo. Est admitido!
      Em vez de apertar-lhe a mo, Ronny passou o brao pelo ombro dela e lhe deu um abrao de lado.
      - Amigos? indagou ele.
      Selena recordou-se do clube "Apenas Amigos" sobre o qual ela e Katie sempre faziam gozao.
      - Amigos, repetiu.
      - Ento vamos, disse Ronny, seno a gente vai chegar atrasado.
      Selena agarrou sua mochila e foi andando para a porta. Antes de sair, atirou na cesta de lixo o papel em que tentara escrever o anncio. Pela primeira vez, 
tinha algum a seu lado enquanto caminhava para a sala de aula.
      Aps as aulas, estava se encaminhando para o carro, quando Ronny e mais duas garotas, Amy e Vicki, se aproximaram. Anteriormente, Selena j havia conversado 
um pouco com aquelas colegas, e ambas haviam tentado desenvolver amizade com ela. Contudo a prpria Selena no fizera nada no sentido de retribuir a ateno das 
garotas.
      Amy era do tipo "italiano". Tinha cabelo negro e olhos castanho-escuros bastante expressivos. Ela costumava usar roupas bem parecidas com as de Selena.
      Vicki era uma aluna muito popular. Isso se devia, em parte, ao fato de ser muito bonita. Tinha cabelo castanho, longo, que ela partia no meio e lhe caa sobre 
os ombros em ondas. Seus olhos verdes eram amendoados, e as sobrancelhas,, finas, bem arqueadas. Tinha uma aparncia graciosa e feminina. Como Vicki era muito bonita, 
Selena achara que fosse meio convencida e nem pensara muito em puxar conversa com ela.
      Os trs se acercaram de Selena e a rodearam.
      - Ns vamos ao McDonald's. Quer ir?
      - Tenho de ir trabalhar agora, explicou ela. Estou comeando hoje e tenho que estar l s 4:00h.
      - Onde voc trabalha? quis saber Vicki.
      - Numa confeitaria em Hawthorne, onde fazem um pozinho de canela muito bom.
      - A Mother Bear? indagou Amy. J fui l. Adoro aquele lugar. Voc sabe onde , Vicki. Fica do mesmo lado da rua da boutique onde costumo fazer compras, A Wrinkle 
in Time.
      - Ah, ! exclamou Vicki. Que tal se a gente fosse l em vez de ir ao McDonald's?
      Selena engoliu em seco. , esse negcio de fazer amizade com os colegas estava sendo meio sem jeito para ela. E na certa, no primeiro dia num novo emprego 
tambm no iria ser l muito fcil. Juntar as duas atividades com certeza no seria uma boa.
      - Mas l no tem hambrguer, tem? disse Ronny, causando alvio em Selena. Estou querendo comer algo salgado.
      - Ah, deixe disso, Ronny! interveio Amy. L tem aquele capuccino gostoso.
      Ao que parecia, a meno de um caf sofisticado no foi suficiente para fazer Ronny mudar de idia.
      - Vamos deixar para uma outra vez, est bem? disse ele.
      - Pra mim est bom, disse Selena, dando um suspiro de alvio e, s ento, percebendo que estivera com a respirao suspensa.
      - Tchau, ento, disse Vicki.
      Os trs se viraram para ir embora. Selena destrancou o carro, mas logo em seguida se deteve e gritou:
      - Oi, gente!
      Eles se voltaram para ela.
      - Obrigada! disse afinal.
      - De nada! exclamou Ronny, respondendo pelo grupo e dando a impresso de que no sabia ao certo do que  que ela estava agradecendo.
      Selena experimentou enorme sensao de bem-estar quando se dirigia para a confeitaria. Estava conseguindo avanar na questo das amizades. E isso no acontecera 
por acaso. Sabia que quando algum sentia uma paz assim, trazida pelo vento do Esprito, certamente era Deus quem estava operando.
      Abaixou o vidro da janela e pousou o cotovelo nela, sentindo o ar frio da tarde. Atravs do pra-brisa, ergueu os olhos para o cu nublado e murmurou:
      - Obrigada, Senhor!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Treze
      
      -  voc, Selena? gritou a me, da cozinha.
      - Sou, me, replicou a moa.  a sua filha desastrada.
      Selena caminhou pesadamente at a cozinha e deixou-se cair numa cadeira. Pegou o cabelo  latura da nuca com uma das mos e ergueu-o para o alto da cabea, 
como se fosse um rabo de cavalo.
      - A senhora no vai nem acreditar no que aconteceu, continuou ela.
      A me abaixou o fogo de uma enorme panela de sopa que estava preparando, e respondeu:
      - Talvez acredite. Vamos ver.
      Selena soltou o cabelo e comeou a contar.
      - Cheguei  confeitaria na hora certa, at um pouco adiantada. Me deram um avental azul muito legal, e D. Amlia logo veio me explicar como se faz um capuccino. 
 muito simples, sabe? Ou pelo menos deveria ser muito simples, comentou ela, abanando a cabea. Da l vou eu fazer meu primeiro capuccino para um fregus que estava 
esperando e olhando pra mim. S que no apertei direito aquela pea onde se pe o p. Sabe,  aquela pea que tem um cabo e se encaixa na parte superior da mquina. 
E ali passa a gua superquente.
      - No me diga! exclamou a me.
      - Digo sim! Liguei a mquina e esguichou gua para todo lado: no meu avental novinho, no balco e no cho. Tentei arrumar o encaixe, e esguichou borra de caf 
por todo lado. E foi pra todo lado mesmo. Um desastre completo.
      - Que horror, filha!
      - Espera! Tem mais! D. Amlia, muito calma e tranquila me disse para fazer tudo de novo e no me preocupar com a baguna. Ento limpei tudo e recomecei, com 
muito cuidado. Tudo saiu maravilhosamente bem. O leite ferveu direitinho. Maravilha! S houve um problema. Esqueci de colocar o p de caf na vasilha. Nem acredito 
no que fiz. Estava to preocupada em fazer o negcio certinho que me esqueci de pr o p. Afinal entreguei o capuccino ao fregus, que estava esperando uns dez minutos. 
Ele tomou um golinho e cuspiu tudo em cima do balco.
      - Ai, Selena! exclamou a me com pena.
      - O homem ficou com uma raiva! E na frente de todo mundo - tinha uns dez clientes na loja - ele exigiu o dinheiro de volta e disse que nunca mais voltaria 
ali. Achei at que ele iria jogar a xcara em mim. Pensei que D. Amlia iria me despedir na mesma hora.
      - E despediu?
      - No! Continuou bem calma e disse: "Isso acontece filha! Vamos fazer de novo!"
      - Que atitude maravilhosa!
      - No ? Ela  simplesmente extraordinria!
      - E voc tentou de novo?
      - Tentei e dessa vez consegui. Fiz outro capuccino para outro fregus. O homem estava sorrindo para mim o tempo todo e fiquei um pouco nervosa. Quando entreguei 
a xcara para ele, deu-me uma gorjeta de um dlar e disse: "Uma herona como voc precisa receber um prmio!"
      A me deu um sorriso abanando a cabea.
      - S voc, Selena! disse ela. E tudo no primeiro dia de trabalho!
      - E ainda no acabou!
      - T brincando! Tem mais?
      Nesse momento, o pai entrou na cozinha tendo na mo a correia de Brutus. Pendurou-a no gancho que havia atrs da porta e indagou:
      - Est contando o primeiro captulo da novela da confeitaria? O que foi que perdi?
      - Depois te conto o princpio, falou a me. Escuta s. Selena se atrapalhou toda.
      A jovem se ps a rir. Riu demais, a ponto de lhe virem lgrimas aos olhos.
      - Pra falar a verdade, a trapalhada caiu em cima de mim.
      - Essa deve ter sido tima! comentou o pai, passando o brao sobre o ombro da esposa e ficando de frente para a filha.
      - Fui pegar uma caixa com pezinhos de canela que estava numa prateleira atrs da caixa registradora. S que pensei que ela estava fechada. No estava. Peguei-a 
sem olhar para ela e os pezinhos caram em cima de mim.
      Ela pegou a ponta do cabelo e concluiu:
      - A cobertura aucarada veio toda para o meu cabelo.
      - Eu j estava mesmo imaginando o que teria acontecido com seu cabelo, disse a me. Mas pra falar a verdade, no estava com muita vontade de saber o que tinha 
sucedido.
      - Agora a senhora j sabe, comentou Selena. Tentei lavar um pouco na pia, l na loja, mas no consegui. No entendo como no me despediram e ameaaram me matar 
se aparecesse l outra vez. Ah, e tem ainda a "grande cena fina". Pouco antes da hora de eu sair, meu avental se prendeu num gancho de uma batedeira enorme que 
tem nos fundo da loja e rasgou.
      - Rasgou muito? quis saber a me.
      Selena ergueu as mos e, com os indicadores, mostrou uma distncia de mais ou menos dez centmetros. A me ps a mo na boca. Selena percebeu que ela estava 
reprimindo o riso.
      - E eles ainda vo querer que voc v trabalhar sbado? indagou o pai.
      - Querem! respondeu a jovem. Simplesmente incrvel, no ?
      - Ser que o anncio do emprego dizia que precisavam de um palhao para entreter os clientes? indagou ele brincando. Sabe, de repente eles querem dar uma incrementada 
na loja, com um showzinho de variedades. Nos dias em que voc estiver trabalhando, os clientes faro fila s para ver o que vai acontecer.
      Selena agarrou um pegador de panela e atirou-o na direo dele.
      - Malvado! exclamou ela.
      - U! Malvado? disse o pai, agarrando no ar o peguador de panela que ia atingir a me. Antes eu era "o paizinho querido e maravilhoso" que estava verificando 
o preo das passagens de avio para voc.
      - E o senhor j ficou sabendo algum? indagou Selena abaixando-se para escapar do pegador de panela que estava voltando na direo dela.
      - O que vamos jantar hoje, querida? indagou o pai.
      - Canja, respondeu ela. E j est pronta.
      - Oh pai, fala! pediu Selena.
      - Canja? continuou o pai, levantando a tampa da panela, Quem  que est doente?
      - O senhor! O senhor vai ficar doente j, se no me falar sobre as passagens, respondeu Selena, dando um pulo e segurando o brao dele antes que ele pegasse 
outro pegador de panela.
      - Ah, depois de grande ficou mais espertinha, hein? falou o pai, inclinando-se e cheirando o cabelo da filha. Estou gostando desse seu novo perfume, Selena. 
Tem uma fragrncia que poderia chamar-se "sado do forno agora". Bastante suave, mas com um sabor muito bom.
      - O senhor  que vai ficar "sado do forno agora" se no me falar das passagens.
      - 'T bom, 't bom! disse ele, erguendo as mos como que se rendendo.
      Na palma da mo direita havia alguns nmeros escritos  tinta.
      - Que  isso? quis saber Selena, agarrando a mo do pai e examinando-a.
      - No tinha um papel por perto e me deixaram um tempo esperando. Quando afinal me atenderam...
      A me abanou a cabea, achando graa na brincadeira do marido.
      - Esse do meio  o preo do vo at o "John Wayne".  o mais barato.
      - "John Wayne"?
      -  o novo nome do aeroporto do Condado Orange. Acha que poder arranjar o dinheiro em trs semanas?
      - Creio que sim, disse Selena, virando a cabea para ler os outros dois nmeros. Isso aqui  dois ou cinco?
      - Acho que  cinco. Deixe-me ver. !  cinco!
      - Qual  o dia da partida e da chegada?
      - Voc sai na sexta-feira e volta na outra quinta. No havia mais vaga para o final de semana e, por esse preo, s havia alguns lugares de resto.
      - O senhor fez a reserva pra mim?
      Nesse momento, o telefone tocou e a me atendeu na extenso do corredor.
      - Claro que fiz, replicou o pai. Eu seria um secretrio muito relapso se no tivesse reservado a passagem para a minha patroa.
      - Ai, ai, ai! falou a me.
      Selena e o pai pararam com a brincadeira e se viraram para ela.
      - Est bem! Entendi! continuou a me. Obrigada por terem ligado. Tchau!
      Ela recolocou o fone no gancho. Tinha o rosto tenso.
      - Precisamos ir l agora.
      - Era do hospital? Falaram alguma coisa sobre V May? indagou Selena.
      A me fez que sim.
      - Selena, voc pode dar o jantar para os meninos? Os dois ainda tm que tomar banho e precisam ir para a cama s 8:00h. Tnia deve chegar s 9:30h. Se houver 
algum problema, ligue pra ns, no hospital.
      - Como  que ela est?
      - No sei ao certo. Harold, podemos ir l agora?
      - Claro, meu bem. Vamos na perua. J peguei a chave.
      Terminaram apressadamente os preparativos e saram. A cozinha, onde alguns momentos antes ressoavam risadas alegres, ficou tristemente silenciosa. Selena fez 
um esforo e respirou fundo.
      - Kevin! Dilton! gritou para o quintal. Est na hora de jantar.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Quatorze
      
      
      Selena saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cabea. Sentiu um forte impulso de ligar para o hospital. Havia j duas horas e meia que vinha sentindo 
vontade de faz-lo. Contudo resistiu a ele. Os irmos haviam jantado, tomado banho e ido para a cama. Ela havia colocado as vasilhas na lava-louas e arrumado a 
cozinha mais ou menos mecanicamente. Tnia deveria chegar a qualquer momento. Selena precisava fazer um trabalho para a aula de ingls - uma redao de quatro pginas. 
Amanh era o ltimo dia para entreg-la, mas como ela deixava tudo para depois, ainda nem o comeara.
      Felizmente, porm, ela sempre se saa bem de tais situaes. Nos seus boletins, os professores costumavam escrever algo mais ou menos assim:
      "Selena  uma aluna inteligente, mas ainda no desenvolveu todo o seu potencial."
      Isso era verdade. Nunca se sentira motivada a se esforar mais. Para qu iria se empenhar, se com pouco esforo conseguia os pontos necessrios para passa 
de ano?
      Vestiu um pijama de malha, o seu predieto, e calou um p de seu chinelo felpudo. Abaixou-se para procurar o outro debaixo da cama. No estava ali. Abriu o 
armrio. Tambm no. Selena procurou o chinelo em todo o quarto. Com isso foi obrigada a reconhecer que o quarto estava muito desarumado. E parecia que era a primeira 
vez que o via.
      - Que baguna! exclamou. , menina, assim no d mesmo para encontrar nada!
      Foi o quanto bastou. No iria tolerar aquela baguna mais um minuto. Com movimentos frenticos, Selena "engatou uma quarta" e se ps a arrumar o quarto. No 
fazia diferena saber que j passava de 9:00h da noite e que ainda tinha o trabalho da escola. No agentava passar um segundo naquele cmodo bagunado. Nesse momento 
at teve pena da Tnia, que todos os dias tinha de conviver com aquela confuso.
      Calada com um chinelo s e sentindo o cabelo molhado nas costas, Selena respirou fundo e se ps a trabalhar velozmente. Pendurou as roupas, amassou e jogou 
fora alguns papis. Guardou alguns objetos nas gavetas e arrumou o tampo da cmoda. Removeu a roupa de cama e correu ao armrio, pegando lenis limpos, que ainda 
guardavam o perfume do amaciante de roupas. Com movimentos rpidos e uma batida no travesseiro, a cama estava arrumada. Provavelmente era a primeira vez que estava 
ajeitada desde que havia mudado para aquela casa.
      A seguir, pegando uma braada de roupas sujas, foi para o poro da casa, onde estava a lavadora. Colocou as roupas na mquina e ligou-a. Ao lado dela, viu 
uma bacia de plstico com suas roupas de alguns dias atrs. Estavam limpas e dobradas. Em cima de tudo, achava-se o chinelo que faltava. Estava limpinho e contrastava 
com o que ele calara. Dentro dele, havia um bilhete escrito com a letra da me. "Algum te ama!"
      Ser que um dia vou ser uma me maravilhosa assim tambm? pensou ela, pegando as roupas limpas e subindo para o andar de cima. Assim que passou pela entrada, 
ouviu uma chave girando na porta. Era Tnia.
      - Mame e papai foram chamados ao hospital, explicou ela para a irm. Ainda no sei o que aconteceu.
      - Por que no ligou para l? indagou Tnia, pendurando a bolsa no gancho do cabide da entrada, onde sempre a colocava.
      - Achei que eles iriam telefonar ou ento voltariam para casa se tudo estivesse correndo bem.
      - A que horas eles foram para l? perguntou a outra, andando apressadamente para a cozinha e pegando o telefone.
      - Por volta de seis e meia.
      Tnia discou o nmero do hospital, que estava escrito com giz' num quadro-negro preso  parede. Pediu que a ligassem com o quarto de V May. Ouviu o telefone 
chamando, mas ningum atendia.
      - Ningum atende, murmurou Tnia. O que ser que est acontecendo? Ser que as enfermeiras do posto de enfermagem no poderiam atender?
      - Talvez. Sei l, replicou Selena, sentindo que comeava a entrar em pnico. Ser que devemos ir ao hospital?
      - Os meninos esto dormindo?
      Selena fez que sim. Tnia estendeu o fone para a irm, para que ela escutasse o rudo.
      -  a stima vez que est tocando. No tem ningum l.
      Recolocando o fone no gancho, Tnia saiu, dirigindo-se para a porta.
      - Vou l, falou. Voc fica aqui com os meninos.
      - Assim que voc chegar l, me telefone, viu?
      - Vou tentar, replicou Tnia, saindo porta a fora com um movimento rpido e fechando-a imediatamente.
      Selena ficou uns instantes parada com a bacia de roupa limpa ao lado, sem saber direito o que fazer. Afinal, decidiu. Pegou a mochila com os objetos escolares 
e foi para a saleta. Fazendo um enorme esforo para se concentrar no trabalho, ligou o computador e se ps a digitar a redao.
      Estava "ligada" no trabalho apenas em parte. Esperava que o telefone tocasse a qualquer momento. A certa altura tirou o fone do gancho para ver se estava funcionando. 
Ouviu o rudo caracterstico de "linha". Estava funcionando perfeitamente. Voltou a concentrar-se no dever de casa. Escreveu sem parar durante vinte minutos.
      Vamos l, Tnia, me liga! Por que ser que ela no liga? Selena se forou a concentrar-se na redao para conclu-la. Sua sensao era de que estava subindo 
um morro ngreme, onde soprava um forte vento contrrio. De dois em dois minutos consultava o relgio. Pegou o telefone duas vezes para ligar para o hospital, mas 
nas duas resolveu esperar que a irm ligasse.
      Estava quase terminando a redao. Selena olhou para o quintal, atravs da vidraa da porta. Estava escuro como breu. Lembrou-se do versculo que lera em Isaas. 
Dizia algo sobre "com minha alma te desejei de noite". Ficou algum tempo sentada ali, em silncio, olhando para o telefone e orando por V May.
      Fez um esforo para voltar a concentrar-se no trabalho. Encerrando-o, fez a correo ortogrfica e, em seguida, colocou para "imprimir". Assim que ouviu a 
impressora comear a funcionar, foi  cozinha e discou para o hospital. Passava de 22:40h. Fazia mais de uma hora que Tnia havia sado. Pediu que a ligassem com 
o quarto de V May, e a me atendeu, na segunda vez em que ele tocou.
      - Mame, disse ela, como esto as coisas por a? O que est acontecendo? Tnia ficou de ligar para mim.
      - Eu sei, respondeu a me calmamente. Sinto muito no termos ligado. Vai dormir, filha. Vamos voltar pra casa daqui a pouco.
      - A senhora no pode me dizer o que aconteceu? Insistiu ela.
      A me fez uma pausa antes de responder.
      - Vamos voltar para casa j, j, disse afinal, e desligou.
      Dessa vez, Selena ficou ainda mais preocupada. Por que ser que a me no queria dizer nada no telefone? Pegou os papis da redao e desligou o computador. 
Recolheu seus objetos e saiu do escritrio do pai. Segurando a bacia com as roupas secas, subiu para o quarto. Derramou as roupas sobre a cama, agora arrumadinha, 
e se ps a organiz-las. Fez uma pilha de camisetas. Colocou de lado as que iria pendurar. Ananjou as peas ntimas em outra pilha. Uma das meias estava sem o par 
dela. De repente lembrou-se de que a vira dentro da mochila.
      Voltou ao andar inferior para pegar a mochila e retornou ao quarto. Como estava com disposio de dar arrumao, derramou os objetos no cho para rearranj-los 
dentro dela.
      A meia estava l, sim, mas suja. Resolveu correr ao poro e colocar mais algumas roupas para lavar, completando assim a lavagem. Quando subia de volta para 
o quarto, ocorreu-lhe que um lanchinho quela hora da noite iria cair bem. Colocou uma fatia de po na torradeira e encheu um copo de leite. Seu pai dissera que 
a melhor maneira de comer uma torrada  meia-noite era com manteiga e mel. Selena experimentara e gostara, passando a adotar a sugesto do pai.
      Segurando o prato com a torrada em uma das mos e o copo na outra, Selena foi andando e bebericando o leite. Sentou se no cho com as pernas cruzadas  moda 
oriental e se ps a pegar os objetos da mochila, guardando uns e jogando fora outros. Ao mesmo tempo ia mordiscando a torrada e se esforando para no se preocupar 
com V May.
      Quando estava no meio da arrumao, ouviu a porta de entrada abrir-se. Ergueu-se de um salto e correu escada abaixo.
      - E a? Como est ela?
      Era Tnia, que pendurou a bolsa no gancho do cabide.
      - Que confuso! Aquele hospital deve ser o mais desorganizado do mundo!
      - O que aconteceu?
      - V May teve uma de suas crises, um lapso de memria, levantou-se e saiu andando pelo corredor.
      - Com o soro e tudo? indagou Selena.
      - Ela o arrancou do brao. Pegou o elevador, desceu para o saguo e entrou na loja de suvenir. A ela escorregou e caiu. Mame e papai ficaram um tempo com 
ela na sala de raios X. Foi por isso que eles no ligaram. Tiveram receio de deix-la sozinha.
      - Mas voc tinha prometido telefonar, queixou-se Selena.
      - E, e eu tentei, mas todas as vezes que ia ao telefone pblico estava ocupado. Voc no quer saber como elaest?
      - Claro que quero.
      - Ela quebrou o p, explicou Tnia. Quando vim embora, tinham acabado de engess-lo. Mame e papai vo ficar l mais ou menos uma hora. Vo esperar at que 
ela se acalme e durma.
      - Ela ainda est com a mente confusa? indagou Selena.
      - Bastante. Acho que o mdico vai receitar um sedativo bem forte para ela dormir.
      - Quando  que ela vai ter alta? Ser que no seria melhor se ela viesse se recuperar em casa, num ambiente familiar?
      - No sei o que o mdico diria sobre isso. Alis, acho que ele estava meio perdido, sem saber direito o que fazer.
      - Aquele no  o mdico dela, explicou Selena, virando-se para subir ao quarto.
      Tnia veio logo atrs.
      - Pra falar a verdade, no gostei muito dele, comentou ela.
      No instante em que Tnia entrou no quarto, deu um berro.
      - Ser que voc nunca vai arrumar essa baguna?
      - Eu arrumei! disse Selena, protestando.
      Em seguida, correu os olhos pelo aposento e percebeu que, embora o tivesse arrumado, agora ele estava todo bagunado de novo. Havia roupas em cima da cama. 
Os objetos da mochila estavam espalhados pelo cho. Os restos do lanche noturno ainda se encontravam sobre a cmoda, que uns minutos antes estivera em perfeito estado.
      - Voc pensa que pode me enganar! exclamou Tnia, tirando os sapatos e guardando-os no armrio. 
      Selena enfiou o resto dos objetos na mochila. Em seguida, como a irm a deixara irritada, pegou as roupas limpas j dobradas que estavam na cama e de propsito 
atirou-as no cho. Afinal, deitou-se na cama, agora incapaz de curtir os lenis limpos e cheirosos, e apagou a luz com um movimento brusco.
      
Captulo Quinze

      No sbado  tarde, Selena, que estivera emocionalmente bem agitada havia algum tempo, experimentou uma calmaria durante alguns momentos. De repente, porm, 
a agitao recomeou. Ela estava no trabalho e tudo transcorrera bem nas primeiras cinco horas. A jovem comeou at a achar aquilo estranho e ficou mais ou menos 
na expectativa que a qualquer momento acontecesse algo errado.
      A parte da manh foi muito movimentada. O tempo passou voando. Ao meio-dia, D. Amlia lhe disse para fazer o intervalo do almoo. Na cozinha, havia uma bandeja 
com alguns pezinhos doces que tinham ficado ligeiramente torrados, e ela deixara ali para quem quisesse. Selena pegou um deles, mas depois de passar a manh toda 
sentindo aquele cheiro caracterstico, no tinha vontade de com-los.
      Sentou-se e ficou uns instantes parada, com a percepo de que as mos estavam meladas e a roupa cheirava a caf. Sentia-se feliz. Estava indo bem no trabalho. 
O pai fizera a reserva da passagem para ela ir  Califrnia. Ontem, na hora do lanche, pudera conversar mais com Vicki e Amy, fortalecendo sua amizade com elas. 
O sol voltara a brilhar.
      Sorrindo consigo mesma, Selena mexeu no brinco da orelha direita e ajustou-o. Lembrou-se de outro versculo de Isaas que lera de manh, apesar de ter feito 
uma leitura apressada. " Na traniqilidade e na confiana (est) a vossa fora." Nesse momentio, sentia um pouco dessa tranqilidade e dessa confiana no Senhor. 
Era uma sensao muito agradvel.
      De repente, o "sobe e desce" emocional recomeou. Naquele instante, D. Amlia chegou  saleta dos fundos e disse:
      - Selena, tem uma pessoa a querendo conversar com voc.
      A jovem foi para a loja, que estava lotada de fregueses, e correu os olhos pelo aposento, para ver quem seria. Era Ronny. O rapaz se encontrava perto da caixa 
registradora.
      - Oi! disse ele. Quer sair comigo hoje  noite?
      Selena sentiu o rosto avermelhar-se na mesma hora. Percebeu que vrios dos presentes olharam para ela.
      - Hoje?
      - Por volta de sete horas, explicou ele. Achei que talvez a gente pudesse ir a um cinema. A que horas voc larga o servio?
      - s 4:00h.
      Nesse momento, Selena percebeu que D. Amlia estava parada junto dela, querendo registrar uma venda na caixa.
      - Oh, desculpe! exclamou a jovem, dando um passo para o lado.
      - Ronny... principiou Selena.
      - Diga logo que sim, falou o rapaz, abaixando um pouco a voz. No complique tudo, Selena. Somos apenas amigos, no ? Ento podemos ir assistir a um filme, 
sem compromisso algum, no podemos?
      - Mais algum vai?
      - No. Voc gostaria que mais algum fosse?
      - Bom...
      Selena no sabia como iria explicar para ele que ningum nunca a convidara para sair. Nenhum rapaz a pedira para namorar. Assim sendo, no sabia se seus pais 
permitiriam. Eles haviam dito que assim que ela fizesse dezesseis anos poderia comear a namorar. Contudo ela j fizera dezesseis e nada acontecera nesse sentido.
      - Voc me faz um favor, Ronny?
      - Claro, replicou o rapaz, abrindo mais o sorriso.
      - Pode me telefonar por volta de 5:00h? Tenho de perguntar a meus pais.
      Imediatamente pensou que ele poderia achar aquilo meio infantil, ento acrescentou:
      -  que minha av est internada, e no sei se poderei sair  noite.
      - Est bem, compreendo. Ento eu tambm quero lhe pedir um favor. Posso?
      - Claro! respondeu ela.
      - Quer me dar seu telefone?
      Selena pegou um guardanapo e escreveu nele o nmero.
      - Obrigado! disse ele. Agora quero um pozinho de canela, ou ser que tenho de entrar na fila?
      - No. Vou pegar pra voc. Quer com calda de acar ou sem?
      - Com,  claro.
      Procurando agir com muito cuidado, Selena puxou uma bandeja com pezinhos recobertos de glac. Pegou uma esptula e colocou um deles numa caixinha "para viagem". 
Ps um pouco mais de calda sobre o pozinho e fechou a tampa da caixa. Em seguida, entregou-a a Ronny, que lhe pagou com a quantia exata.
      - Ento vou lhe telefonar, disse ele, dando um aceno, e foi embora.
      Selena soltou um suspiro, relaxando a tenso, e olhou para o relgio. Seu horrio de almoo estava encerrado, ento foi atender ao cliente seguinte. Nenhum 
dos colegas de trabalho fez comentrios sobre o rapaz. Ficou satisfeita por isso.
      Ao mesmo tempo, porm, estava morrendo de vontade de conversar com algum sobre o acontecido. Afinal era o fato mais importante de sua vida. Um rapaz a convidara 
para sair!
      Como na parte da tarde o movimento da loja caiu um pouco, Selena teve mais tempo para ficar pensando no encontro com Ronny. Quando era mais nova, vivia sonhando 
com o dia em que teria seu primeiro encontro com um rapaz. Imaginava como tudo aconteceria e como o jovem seria. Contudo nunca pensara que seria assim to seco e 
sem romantismo. E nunca imaginara que seria uma pessoa do tipo do Ronny.
      No que houvesse algo de errado com ele, disse para si mesma, procurando se consolar. Ele era muito bom "como amigo". O problema  que nunca pensara em sair 
com ele. Ficou a indagar-se quanto tempo havia que ele pensava em convid-la para sair. Ser que havia gostado dela desde o primeiro dia? Ou ser que o interesse 
dele despertara no dia em que ela conversara com ele na escola e lhe estendera a mo para selar a amizade? E se ele sentira algo, por que no acontecera o mesmo 
com ela?
      A certa altura, quando estava limpando algumas mesas e colocando pacotinhos de acar numa cestinha, ocorreu-lhe que talvez ele estivesse fazendo isso por 
piedade. Era possvel que estivesse com pena dela, pois ela havia se aberto com ele, confessando que no tinha amigos. Selena coocou um saquinho de adoante em p 
numa das cestinhas e pensou:
      Se  por isso, ele pode parar. No preciso da piedade dele. Eu preferia no ter nenhum encontro, nunca, do que aceitar um convite que  feito por piedade, 
principalmente de um rapaz que diz ser meu amigo.
      E pelo resto da tarde ficou firme nessa determinao. Isto , ficou firme at o momento em que passou pelo correio onde pusera a carta "malcriada" que escrevera 
para o Paul. Ainda estava arrependida de hav-la escrito. Se ao menos tivesse parado para pensar melhor e esperado um pouco mais... Na verdade, Paul, em sua carta, 
estivera brincando com ela, e no agredindo-a.
      No dia em que conhecera Paul, ele lhe causara uma impresso muito forte. Depois disso, orara fervorosamente por ele durante um bom tempo. Agora, com sua carta, 
estragara a pequena amizade que comeara a formar-se entre os dois. Talvez amizade no fosse bem a palavra, mas certamente havia algo entre eles; e ainda estava 
presente na mente dela.
      - Me! gritou Selena, assim que entrou em casa. A senhora est a?
      - No, respondeu Tnia, que se encontrava na saleta. Est no hospital.
      Selena dirigiu-se para a saleta, que estivera em reforma. Seu pai montara ali um centro de recreao para a famlia na noite anterior, dissera que estava pronto 
para ser utilizado. Os meninos estavam deitados no cho, jogando video game. Tnia colava etiquetas em algumas fitas de vdeo e em seguida guardava-as numa gaveta 
prpria.
      - No esquea de coloc-las em ordem alfabtica, disse Selena, com ironia.
      - Que piada  essa? indagou a irm, virando-se ligeiramente para encar-la.
      - J sei que voc vai ficar toda feliz depois que tudo estiver nos seus devidos lugares, explicou Selena, sentando-se no cho ao lado dos irmos. Quem est 
ganhando? indagou.
      - No h nada de mal em ser bem organizada e ordeira, Selena, observou Tnia, em tom rspido. Mas  claro que voc no entende nada a respeito disso, no ?
      A seguir, Tnia se concentrou no que fazia, e Selena, nos irmos. E as duas momentaneamente se "esqueceram" uma da outra.
      - Quer jogar com o vencedor? indagou Dilton para Selena.
      - Claro, replicou ela.
      De repente, porm, lembrou-se de que Ronny iria ligar s 5:00h.
      - Algum sabe a que horas papai e mame vo voltar?
      - Papai est a, informou Kevin. L na oficina.
      Selena ergueu-se rapidamente.
      - Volto j, disse, e saiu em direo ao quintal.
      Seu pai estava trabalhando no barraco, que parecia uma casa de bonecas. Tinha uns culos de proteo no rosto e cortava algo com a serra eltrica. Selena 
tapou os ouvidos com as mos e esperou que ele pudesse olhar para ela. 
      Ele chegou ao fim da tbua que estava serrando e avistou a filha. Desligou a ferramenta, afastou os culos para o alto da testa, e disse:
      - Ah, j chegou, hein? Como foi o trabalho hoje? Mais unas aventuras iguais s de quinta-feira? Por falar nisso, liguei para o Livro Guiness de Records e eles 
esto pensando em coloc-la na lista do "pior primeiro dia de trabalho".
      - Pois diga a eles que podem arranjar outro otrio para figurar no livro deles. Minha vida de funcionria desastrada acabou. Hoje no houve praticamente nada 
de excepcional.
      - Praticamente?
      - Recebi um convite pra sair com um rapaz, disse Selena.
      O pai de Selena largou a serra e chegou perto da filha, para olh-la direto nos olhos. Ele sempre fazia isso com os filhos desde que eram pequenos. Seu objetivo 
era descobrir se estavam mesmo dizendo a verdade. Apesar de agora estarem crescidos, ele continuava com essa prtica. Selena achava que essa era a maneira que ele 
encontrara para descobrir as alegrias e tristezas que os filhos abrigavam, mas que tinham aprendido a "esconder" no fundo da alma assim que se tornaram mais velhos.
      - Diga-me tudo, falou ele.
      -  um rapaz l da escola, explicou Selena. Apostoo que o senhor estava pensando que era um colega de servio que conheci h pouco tempo. Houve um dia nessa 
semana que ns mais ou menos lanchamos juntos, na escola. O nome dele  Ronny. Ele foi l no meu servio e perguntou se eu queria sair com ele hoje s 7:00h. Respondi 
que teria de conversar com o senhor. Ele vai telefonar s 5:00h. O que devo fazer?
      O pai foi abrindo o rosto num sorriso lento. Selena no conseguiu entender o que aquilo significava.
      - As 5:00h, hein? repetiu ele, consultando o relgio. Deixe comigo.
      Ele deu uma ligada rpida na serra e, em seguida, desligou-a e colocou-a sobre a banca de trabalho. Parecendo uma pessoa realizando uma misso importante, 
retirou os culos de proteo e, em passadas largas, saiu andando em direo  cozinha e ao telefone.
      - Est bom, disse, virando-se ligeiramente para a filha. Deixe esse cara comigo, Selena.
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dezesseis
      
      - P\apai! disse Selena com voz de splica, olhando para o relgio.
      Faltavam quinze para as cinco, e o pai parou perto do telefone, com ar de quem iria atend-lo assim que tocasse.
      - O senhor no vai fazer nenhuma maluquice no, n?
      - Eeeeu? indagou ele em tom irnico.
      - Pai, no faz com Ronny o que o senhor fez com o Martin, aquele namorado da Tnia, pediu ela.
      - Quem? Martin, o marciano? indagou.
      - O que vocs esto falando de mim a? perguntou Tnia, entrando na cozinha naquele momento.
      - Selena lhe contou? perguntou o pai. Um rapaz convidou-a para sair, de verdade.
      - 'T brincando! exclamou Tnia.
      - No.  verdade sim. Um pobre e inocente garoto chamado Ronny foi l no trabalho dela hoje convid-la para sair com ele.
      - Como foi que voc o conheceu? quis saber Tnia.
      -  um colega da escola. Ele  apenas meu amigo, gente. Nunca imaginei que fosse me convidar pra sair com ele.
      - Est vendo? interveio o pai. J est na hora de voc reconhecer que  uma garota muito bonita. \Aposto que Ronny ser o primeiro, mas no o ltimo.
      - , replicou Selena, cruzando os braos e dando um olhar srio para o pai. E espero mesmo que ele no seja o ltimo, depois que o senhor conversar com ele.
      -  pai, interveio Tnia, o senhor no vai fazer com ele o mesmo que fez com o Martin, vai?
      Fazia um bom tempo que ela no tomava o partido da irm.
      -  isso a, pai. Escuta o que Tnia est falando.
      - Aquela tal "entrevista" que o senhor fez com ele foi demais. No faa isso com esse rapaz no, viu? Como  o nome dele?
      - Ronny.
      - No faa o mesmo com o Ronny no, t, pai! O senhor "assustou" o Martin, e todo mundo l em Pineville passou a me ver como uma garota que no podia namorar. 
O senhor ainda lembra como todos riam de mim e diziam que quem quisesse sair com a Tnia tinha primeiro que conquistar o pai dela?
      - Ah, mas isso no te prejudicou em nada. E depois isso me valeu um jogo de golfe de graa, e fui convidado para jantar fora duas vezes, comentou. Ademais, 
 isso que quero que todos pensem de minhas filhas.
      - , mas no precisa exagerar, n pai? disse Tnia, assumindo uma atitude carinhosa e defendendo a irm. Talvez o senhor devesse convid-lo para jantar ou 
passar umas horas com a famlia numa atmosfera descontrada. Assim tudo bem. Mas aquela tal conversa "de homem pra homem"  muito sria, t bom?
      O pai pensou uns instantes e em seguida disse:
      - Ah, tive uma idia!
      Nesse momento o telefone tocou. Selena olhou para o relgio: 5:00h em ponto. Fitou o pai e a seguir dirigiu  irm um olhar de indagao.
      - Eu atendo! falou o pai.
      Ele fez um aceno para as filhas, como que dizendo: Fiquem tranquilas!
      Selena mordeu o lbio inferior e ficou atenta a ele.
      - Al! Est. Selena est aqui sim. Ah,  o Ronny?
      Seguiu-se uma pequena pausa.
      - Prazer em conhec-lo, Ronny. Antes de chamar a Selena, queria conversar com voc. Minha filha falou que vocs estavam pensando em sair hoje  noite.
      Outra pausa.
      - Bom, eu queria convid-lo para vir comer uma pizza conosco s 6:00h, se voc quiser.
      Ainda outra pausa.
      - T bom. Voc quer falar com Selena? Ah, o.k.! Tchau.
      E desligou. Pela expresso do seu rosto no dava para descobrir o que Ronny respondera.
      - Ele disse que no, certo? indagou Selena. Desistiu de tudo e disse que nunca mais iria me incomodar, no foi?
      O pai foi dando um sorriso lento, fechando um pouco os olhos, como fazia quando tinha vontade de chorar mas reprimia o choro.
      - Que foi que ele disse? indagou Tnia, agarrando um dos braos dele.
      Selena pegou o outro brao e deu um puxo.
      - Fale logo, pai, seno arrancamos os braos do senhor.
      - Que tipo de pizza as senhoritas querem? indagou ele.
      - Ento ele vai vir? 
      - s 6:00h.
      O telefone tocou de novo. Selena pegou-o depressa, antes que o pai atendesse.
      - Al!
      - Selena!
      - !
      - Oi! Sou eu outra vez. Dei um fora tremendo. Esqueci de perguntar seu endereo.
      A garota soltou uma risada nervosa. Em seguida, explicou a Ronny como se chegava em sua casa, vendo que Tnia e o pai a observavam atentos.
      - Ento voc no se importa de vir  minha casa, comer pizza com a gente?
      - Claro que no! Nunca rejeito um convite para jantar, menina! replicou ele rindo.
      Selena ficou mais tranqila e disse:
      - Ento at mais ou menos daqui a uma hora.
      - At l!
      Selena desligou e olhou para o pai e a irm com um leve sorriso.
      - No falei que era pra deixar comigo? comentou o pai. Eu sei que se conquista um homem  pela boca. Sempre foi assim e sempre ser. Podem confiar em mim, 
garotas.
      - Ento o que vai acontecer assim que esse coitado desse "cobaia" chegar? quis saber Tnia. O senhor vai lev-lo para o seu escritrio e obrig-lo a assinar 
um documento antes de eles sarem?
      - No! respondeu o pai, dando um beijinho na testa de Tnia e fazendo o mesmo com Selena.
      - Ento, o que o senhor vai fazer? indagou esta.
      - Vocs vo ver! foi a resposta dele.
      O pai foi at a porta da frente e se virou para a saleta onde os garotos estavam.
      - Meninos, gritou ele, querem ir comigo pegar umas pizzas?
      - Voc vai trocar de roupa, no vai? indagou Tnia para a irm.
      Selena baixou os olhos para examinar a roupa que estava .usando: um macaco jeans e uma camiseta branca.
      - U! Por qu?
      - Voc ficou com essa roupa o dia inteiro, e at foi trabalhar com ela.
      - E da? Ela  muito confortvel.
      - Selena, voc devia pelo menos fazer um pequeno esforo para sentir que se trata do seu primeiro encontro com um rapaz. Sabe, n? Dar uma escovada no cabelo, 
ou algo assim. Se quiser, posso lhe emprestar minha maquiagem.
      Selena teve vontade de rir, mas reprimiu o riso. Nunca usara nem um pingo de maquiagem. No seria agora que ia comear a usar. E, ainda mais, por causa do 
Ronny. Era ridculo pensar nisso. Contudo refreou o riso porque era a primeira vez que Tnia tinha uma atitude generosa para com ela. Era um gesto totalmente diverso 
do temperamento da irm. Ela raramente partilhava algo com Selena; e menos ainda seus objetos pessoais como roupas, jias e maquiagem. Esta nunca sabia o que ia 
nos pensamentos da irm, e no queria "estragar" um momento to bom.
      - Obrigada, replicou, mas acho que no quero no. No vou me maquiar s para ficar aqui comendo pizza ou para ir ao cinema.
      Tnia fitou a irm com firmeza e insistiu.
      - S um pouquinho de rmel.  s isso que sugiro. Mas voc  quem decide.
      - T bom. Acho que d. Mas  s um pouquinho, j que voc insiste.
      - S estou querendo ajudar, Selena! disse Tnia, em tom seco.
      - Eu sei, Tnia, e agradeo. Agradeo mesmo. Mas  s um pouquinho de rmel, t bom?
      As duas foram subindo para o quarto e Tnia se ps a orientar Selena.
      - Voc pode usar uma cala jeans, mas no essa largona a.
      - Por qu? O que tem de errado com ela?  a roupa que mais gosto.
      - Ela a deixa gorda.
      - No acho.
      - Deixa sim. E d a impresso de que est avacalhada. Parece que voc a comprou na seo de vesturio masculino da Sears.
      - No foi, no! replicou Selena, protestando.
      As duas pararam  porta do quarto, e Tnia virou-se olhando para a irm com ar de quem diz: Eu estou certa, e voc, errada. Selena tambm fitou Tnia direto 
nos olhos.
      - No comprei essa roupa no setor masculino da Sear,s no.
      Em seguida, abaixou um pouco a voz, deu um sorriso maroto e concluiu:
      - Se quer saber, comprei-a no setor masculino da Marshalls. L ela era trs dlares mais barata.
Captulo Dezessete
      
      Faltavam dez minutos para as seis. Selena examinou atentamente sua imagem refletida no espelho da cmoda. Tnia estava de p, atrs da irm, admirando sua 
"obra-prima". O cabelo de Selena estava penteado para trs, numa longa trana, presa na ponta com um passador. Ela no estava usando brincos, o que quase lhe dava 
a sensao de estar nua. Tnia  dissera que os brincos atrapalhavam seu visual. Ela queria que a irm tivesse uma aparncia bem jovem.
      - Infantil, mas com um trao de personalidade, explicou ela, girando a escovinha de rmel nos clios de Selena.  assim que voc  por dentro, Selena. A gente 
deve ser por fora exatamente como  por dentro. Fique parada. Voc est dificultando o trabalho.
      - Voc vai espetar meu olho.
      - Vou no. Fique calma. Sei o que estou fazendo.
      - Voc est querendo que eu fique parecida com voc, Tnia. E eu no sou voc.
      - No estou querendo que fique parecida comigo, no.
      - Ento, por que est fazendo isso?
      Tnia se afastou um pouco e disse em voz seca:
      - Por que ser que quando algum quer trat-la bem, voc dificulta tudo, Selena?
      A resposta de Selena foi:
      - Talvez porque eu j esteja acostumada a ver certas pessoas s me criticando e nunca me elogiando.
      Tnia no respondeu nada. Voltou a passar o rmel nos clios da outra.
      - Pronto, disse ela, dando um passo para trs.
      As duas ficaram a examinar o resultado final.
      - Ficou muito bom, disse Tnia. Est vendo como um pouquinho de cuidado pode mudar a aparncia de uma pessoa?
      Ah, meu pai! pensou Selena. A garota ainda no estava muito satisfeita com o fato de estar "toda embonecada", como dizia o pai. Ficou olhando para o prprio 
rosto por alguns instantes sem dizer nada. Era verdade que os olhos pareciam mesmo maiores. E tambm mais azuis. Contudo as sardas que tinha no nariz ainda lhe davam 
um ar de menina, e no aquele aspecto sofisticado, prprio de Tnia. Parecia que por mais maquiagem que aplicasse, nunca teria tal aparncia.
      , mas apesar de tudo ela parecia ter mais de dezesseis anos. Pelo menos achava que tinha um ar de mais velha. E Paul tambm achara isso quando haviam se conhecido, 
em Londres. Ele custara a acreditar que ela tinha s dezesseis.
      Preferia sair hoje com Paul a passear com Ronny, pensou. Se fosse com ele, deixaria que voc me maquiasse todinha, Tnia. Eu queria ficar com uma aparncia 
belssima. Mas no  com ele que vou sair. Alias,  provvel que nunca mais o veja. Eu devia ficar alegre de saber que um cara como o Ronny est interessado em mim.
      - E a? indagou Tnia. O que est achando?
      Selena se lembrou do dia em que V May viera ao seu quarto e ficara se olhando naquele mesmo espelho. Ela se aproximara dele para ver melhor sua imagem refletida 
ali e tocara de leve as rugas do canto dos olhos. Em seguida, contara que tinha a impresso de que fora ontem mesmo que completara doze anos.
      Por alguma razo, Selena compreendeu que ela tambm vivia um momento marcante em sua vida. Era estranho pensar que a av vira a prpria imagem naquele espelho 
aos doze anos, aos dezesseis e em todos os outros anos que se seguiram. Era estranho pensar em V May com dezesseis anos.
      - No vai dizer nada? indagou Tnia.
      - Est esquisito.
      - Ah, muito obrigada, viu?
      - No estou falando da maquiagem, no. Estou me refetindo a um fato que acontece s uma vez com a gente: atravessar a ponte que liga a infncia com a vida 
adulta. E depois no se pode voltar nunca mais. Isso tudo me d a impresso que estou dando mais um passo nessa ponte.
      Tnia fitou a irm com ar de espanto.
      - Desde quando voc virou filsofa?
      - Voc no pensa esse tipo de coisa?
      - Claro que penso. S que eu no achava que voc tambm pensava.
      - Pois penso algumas vezes. Como agora, por exemplo.
      Tnia colocou a bolsinha de maquiagem sobre a cmoda e pegou um frasco de perfume. Esguichou um pouco no ar, sobre a cabea de Selena.
      - Voc combina com uma fragrncia doce e bem suave, disse. Gosta dessa?
      Selena deu uma cheirada forte. O perfume no era dos que Tnia usava. Tinha mais um jeito de pessoa que acabara de tomar um banho.
      - . Gostei.
      - Ento feche os olhos, que vou borrifar no seu cabelo.
      - O qu?
      - Feche os olhos!
      Selena fechou-os e Tnia borrifou o lquido no cabelo vrias vezes.
      - Agora est pronta. Quero dizer, com exceo da roupa.
      - Vamos combinar uma coisa, disse Selena, voc arrumou minha cabea do jeito que quis. Agora o resto eu vou arrumar.
      Tnia deu de ombros, recolocou o frasco de perfume no lugar e se ps a tirar os fios de cabelo da escova.
      - Voc  quem sabe! disse.
      Selena correu a mo por uma pilha de roupas que estava no cho e pegou uma camiseta listada e uma cala jeans bem folgada. Ignorando os resmungos da irm, 
levantou-se e foi para o banheiro para acabar de se aprontar em paz.
      O pai chegou de volta com a pizza antes de Ronny aparecer. Selena ouviu o pai e os irmos na cozinha. Quando descia a escada, a porta da frente se abriu e 
a me entrou, com aparncia cansada.
      - Como est a V May? indagou Selena, indo ao encontro da me.
      Ela fitou a filha, admirada.
      - Ahn, voc est tima! Foi voc que arrumou o cabelo?
      - No. Isso foi a grande "misso" de Tnia hoje. Vou ter um encontro com um rapaz .
      Sua me relaxou a expresso tensa do rosto e deu um sorriso.
      - U, voc no me disse nada! Seu pai est sabendo?
      - Claro. Ele at convidou Ronny para comer pizza conosco hoje. Alis, ele deve chegar a qualquer minuto. Estou parecendo uma boba?
      - Selena Jensen! exclamou, pegando as mos da filha. Voc est linda! No tem idia de como est bonita!
      Nesse instante, ouviram passos na entrada e uma voz masculina pigarreando. Em seguida, a campainha tocou. Selena e a me deram um leve aperto de mos e se 
entreolharam, dando risadinhas camufladas.
      - Acho que  pra voc, falou a me, dirigindo-se para a cozinha.
      Antes que Selena chegasse  porta, Kevin e Dilton passaram correndo por ela, brigando para abri-la. Os dois agarraram a maaneta ao mesmo tempo e a puxaram, 
mas ela saiu na mo de Dilton.
      - T vendo, voc quebrou ela! falou o garoto imediatamente. Papai, Kevin quebrou a maaneta!
      - Quebrei no! disse Kevin, dando um empurro no irmo. Foi voc!
      - Ei, meninos! interveio Selena, gritando por causa do barulho. Parem com isso!
      O pai veio da cozinha com a me logo atrs dele. Os dois perguntavam em voz alta o que estava acontecendo. No mesmo momento, Tnia apareceu no alto da escada 
e desceu correndo para ver o que se passava.
      - Busque uma chave de fenda pra mim, disse o pai. Dilton, vai l na oficina e pegue uma chave phillips e uma comum.
      - No fui eu que quebrei, no, pai!
      - Eu no disse que foi voc que quebrou. Vai l buscar pra mim, 't? Espere a, Ronny! gritou o pai diante da porta fechada. Vamos abrir j, j!
      Selena percebeu que estava ficando tensa. Na certa, Ronny estava escutando toda aquela barulhada. E ela nem poderia reclamar se ele resolvesse dar no p. Todo 
mundo estava falando ao mesmo tempo, dando sugestes para solucionar o problema. Dilton voltou com trs chaves de fenda. A me de Selena estava dizendo que a pea 
que faltava talvez tivesse cado no cho. Ela se abaixou e ficou de gatinhas procurando a pecinha. Kevin tambm se abaixou e encontrou um inseto morto, que logo 
resolveu guardar.
      - Tenta abrir com a chave de fenda, sugeriu Tnia. No precisa recolocar a maaneta, no, pai. Isso j aconteceu com a porta do banheiro, lembra? V May abre 
com a ponta do cabide de arame. Ela o enfia l e pronto.
      - Eu sei o que estou fazendo! replicou o pai, meio irritado. Morei nesta casa velha durante toda a minha infncia, sabia?
      Usando a chave comum, ele introduziu algo no orifcio da maaneta. Ela fez um "clique". Nesse momento a me ergueu a cabea, que bateu no cotovelo do pai.
      - Ai!
      - Machucou?
      - Abre a porta!
      - Cheguem pra trs, gente!
      - Espere a. Deixe-me levantar!
      - Cuidado com meu bichinho!
      Afinal a porta se abriu, e os seis deram um sorriso para cumprimentar o "namorado" de Selena. No viram ningum. Selena teve vontade de chorar.
      - Oi, pessoal! disse uma voz atrs deles.
      Todos se viraram. Era Wesley, o irmo mais velho de Selena. Ao lado dele, estava Ronny.
      - Encontrei este coitado l fora na varanda, disse Wesley. Pertence a algum aqui?
      -  meu amigo, replicou Selena, sentindo o rosto avermelhar-se.
      A me correu para o filho, o abraou e o beijou.
      - Voc no avisou que vinha passar o final de semana conosco, disse ela.
      - Ahn? Agora tenho de "fazer reserva" ou algo assim? Talvez seja esse o seu problema, rapaz, disse ele, virando-se para Ronny. Voc no ligou antes de vir. 
Se tivesse ligado, talvez tivessem aberto a porta. Mas agora j sabe meu segredo. Entre pela porta dos fundos.
      Todos riram e Selena disse:
      - Gente, este  o Ronny. Estes aqui, Ronny, so meu pai, minha me e meus irmos. Esqueci de lhe avisar que eles so meio malucos.
      Mais risos. Ronny ficou parado, com uma expresso de quem se sente meio perdido, sem saber o que fazer.
      - Vamos atacar aquela pizza enquanto est quente, pessoal, falou o pai, fazendo um gesto que indicava que todos deveriam segui-lo  cozinha.
      Quando passou perto de Ronny, indagou:
      - Voc gosta de pizza de anchova, Ronny?
      - Ah... ... no muito.
      - Oh que pena! exclamou o pai.
      Selena aproximou-se do rapaz e disse:
      - No liga, no, Ronny. No foi pizza de anchova que ele comprou no. Est brincando. Detesta anchova. Provavelmente trouxe de calabresa ou outro sabor. No 
se preocupe, no.
      - Ah, no estou preocupado no, replicou Ronny, com um leve sorriso, falando baixo.
      Selena olhou-o com expresso agradvel, procurando sorrir tambm. Ento percebeu que a cara do rapaz era de quem estava preocupado, sim. Muito preocupado.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dezoito
      
      Momentos depois, quando todos estavam sentados  mesa, comendo pizza em pratos descartveis e bebendo Pepsi em latinhas, Ronny mais descontrado.
      - Voc parece com aquele cara da banda de "rap" disse Kevin.  voc?
      O rapaz deu uma olhada rpida para Selena e replicou:
      - Acho que no!
      - Voc canta em alguma banda? continuou o garoto.
      - No, respondeu ele.
      Kevin fez uma expresso de decepcionado.
      - Mas meu pai tocava numa, explicou Ronny. Tocava bateria.
      - Hum! Que legal! exclamou Dilton. Voc tambm toca bateria?
      - Um pouco. E toco um pouco de piano tambm.
      - Ah! fez o garoto.
      Evidentemente, na opinio de Dilton, tocar piano no era to legal quanto bateria.
      - Em que ele trabalha agora? quis saber a me de Selena.
      - Ele  cientista.
      - O cientista louco! disse Kevin em voz grave, erguendo os braos e deixando as mos pender, como um gorila.
      - Isso  um desenho animado, disse Dilton, explicando o gesto do irmo.
      - Dava pra deduzir, comentou Wesley.
      - Que tipo de cientista? indagou a me.
      - Ele  uma espcie de gelogo.
      - Uma espcie? Como assim? perguntou Tnia.
      Ronny olhou para Selena e, em seguida, parecendo meio inseguro, respondeu:
      - No momento ele trabalha com uma equipe de exploradores que est procurando a arca de No, explicou o rapaz, fitando todos ali e aguardando a reao deles.
      - Que interessante! exclamou o pai. Seria fabuloso se a encontrassem, no seria?
      Ronny pareceu aliviado.
      - Tem gente que acha isso meio esquisito, comentou Ronny. Ele trabalha tambm com uns cientistas que estudam o vulco do monte St. Helens. Mas agora est se 
dedicando mesmo  ao projeto do monte Ararate.
      - Ah, ento foi assim que ele lhe deu aquele bluso espetacular que voc usa na escola de vez em quando, no foi? indagou Selena. Voc me contou que ele o 
trouxe do Nepal.
      - ; ele o trouxe no ano passado, quando foi l.
      - Sua me trabalha fora? quis saber a me de Selena.
      - Trabalha. Ela leciona em uma escola crist. D aulas para a terceira srie.
      Selena correu os olhos  sua volta. Sentiu-se aliviada ao ver que tudo corria tranqilamente, melhor do que no incio. E o bate-papo foi continuando informal 
at que a pizza acabou. Dilton convidou Ronny para disputarem um joguinho no computador, e logo em seguida Wesley disse que depois jogaria com quem vencesse.
      - Voc fica chateada se eu for jogar? indagou Ronny para Selena.
      A garota percebeu que ele estava doidinho para jogar.
      - A que horas temos de sair para ir ao cinema? perguntou ela.
      - Depende do que voc quiser assistir, explicou Ronny.
      Ele entregou o prato vazio para a me de Selena, que estava recolhendo as vasilhas.
      - Obrigado! disse sorrindo. Estava uma delcia.
      - De nada. Ainda bem que voc gostou, pois passei o dia inteiro na cozinha preparando-as, comentou ela brincando.
      - A que filme voc gostaria de assistir? disse Selena, procurando recuperar a ateno dele.
      - Qualquer um, desde que seja bom e no imoral.
      - Ronny, gritou Dilton da saleta, j est tudo arrumado.
      O rapaz olhou para Selena. A moa estava decidindo se iria ficar irritada ou no. Todo mundo j havia sado da sala de jantar, e ela percebeu que teria liberdade 
para responder o que quisesse.
      - Ah, vai l, disse afinal. No precisamos sair e ir ao cinema. Podemos ficar por aqui mesmo.
      - Voc no se importa?
      Ela abanou a cabea.
      - Desta vez no.
      - Ronny! gritou Dilton de novo.
      - Ento fico te devendo um cinema! falou o rapaz.
      - Est bem, concordou Selena. E no vou deixar que voc se esquea disso no, 't?
      Ela o levou  saleta, onde viu Wesley no lugar em que Ronny iria jogar.
      - Vou lhe mostrar como isso funciona, disse Wesley.
      - Ah, acho que j sei, replicou Ronny.
      Wesley lhe entregou o controle e disse para o irmo:
      - Cuidado a, coleguinha! Esses caras que parecem tranquiles so verdadeiros campees tentando esconder seu mrito.
      - O que  mrito? quis saber o garoto.
      - Olhe pra mim que voc vai ficar sabendo, respondeu Ronny, acomodando-se no cho e pressionando a tecla start.
      Selena teve a sensao de que ele ficaria ali pelo resto da noite. Foi  cozinha para beber gua. Sempre que comia pizza de calabresa sentia muita sede.
      Tnia estava junto  pia, ajudando a me a lavar algumas vasilhas que haviam se acumulado durante o dia.
      - No acredito que voc est deixando o Dilton fazer isso! disse ela.
      - Fazer o qu?
      - Voc praticamente "entregou" o Ronny para os meninos. Eles vo ficar jogando vdeo game a noite toda. Voc no acha ruim ele ter te largado assim, sem mais 
nem menos?
      - Na verdade, no. Acho que me sinto at mais tranqila de ver que meu primeiro encontro est sendo assim.
      - Mas isso nem  um encontro; ele a trocou por um jogo!
      - Tnia! disse a me em tom suave.
      -  um primeiro encontro, sim, insistiu Selena. Pra mim isso  meu primeiro encontro. E por sinal, estou gostando mito.
      - Pois tenho certeza de que eu no gostaria.
      - Mas no  o seu primeiro encontro, falou a me para a filha mais velha. E me lembro que o seu foi bem desastroso. Ele no te levou a um restaurante que no 
funcionava mais?
      - O pai dele tinha dito que era um restaurante muito bom. Fazia apenas um ano que eles tinham fechado.
      - Ah, eu me lembro disso, interveio Selena. Vocs acabaram indo a uma sorveteria, e voc estava toda arrumada, tinha ido ao cabeleireiro e tudo.
      - Mas apesar disso ns nos divertimos, falou Tnia com um certo despeito.
      - E eu tambm pretendo me divertir hoje, replicou Selena. Algum quer jogar Trivial Pursuit *? indagou ela.
      - tima idia! falou a me. Vou dizer a seu para pegar o tabuleiro.
      - Vou fazer dupla com Wesley! foi logo dizendo Tnia. Vinte minutos depois, as quatro duplas estavam "mergulhadas" na batalha do joguinho. Selena e Ronny estavam 
ganhando. Em segundo lugar, vinham a me e o pai, Kevin e Dilton eram os ltimos e, aps mais meia hora, se cansaram e voltaram para a saleta para assistir a um 
vdeo
      E o jogo continuou. A certa altura, quando j eram quase 22:00h, Selena pegou um punhado de pipoca e levou-o  boca. Ronny jogou o dado e disse:
      -  agora, Selena! vamos ganhar o jogo!
      O rapaz empurrou o pino deles, colocando-o no ponto devido, um quadradinho cor-de-rosa. Wesley tirou a pergunta correspondente de dentro da caixa.
      - Ah, beleza! exclamou ele, lendo-a em silncio. Essa voc nunca vai saber, Selena.
      - Deixe-me ver, pediu Tnia, olhando por cima dos ombros do irmo. No tenho a menor idia. Esta voc no vai saber, Selena!
      - Ento leia! pediu a me.
      - Est bem. L vai. A pergunta : Qual era o segundo nome de Elvis Presley?
      Selena soltou um gemido, mas Ronny respondeu imediatamente:
      - Aaron!
      - Tnia e Wesley se entreolharam sem compreender.
      -  isso mesmo que voc quer responder? A resposta tem de ser dada pela dupla, hein!
      Selena olhou para o rapaz.
      - Tem certeza de que  Aaron? Perguntou.
      Ronny acenou que sim. A moa no conseguia decidir o que fazer. No sabia se ele estava mesmo falando srio. No incio do jogo, ele dera umas respostas meio 
malucas, bem erradas. Ela ainda no o conhecia o suficiente para saber se estava brincando ou no. Selena respirou fundo.
      - Est bem, disse afinal. Confirmo "Aaron".
      - No acredito! exclamou Wesley, colocando o carto na mesa. Est certo.
      Ronny e Selena ergueram o brao e bateram a mo de um na do outro, dando um "Toque aqui!"
      - Vencemos! disseram eles.
      - O.k.! Mas como foi que voc soube disso?
      - Eu no disse que meu pai tocava numa banda? Mas no falei que era uma banda evanglica, falei?
      Instantes depois, todos se puseram a tirar as vasilhas da mesa e levar para a cozinha os copos e as tigelas de pipoca. Depois se sentaram e conversaram durante 
uma meia hora mais ou menos. Afinal, Ronny se levantou para sair.
      - Bom, acho que est na hora de ir embora, disse o rapaz. Muito obrigado por tudo, gente. Foi uma noite muito agradvel. Tchau, pessoal! Tive muito prazer 
em conhec-los.
      Todos se despediram dele, e Selena foi com o rapaz at a porta. O pai j havia consertado a maaneta. Mesmo assim, garota girou-a com cuidado.
      - Muito obrigada por ter vindo e tudo o mais, disse ela. Passamos uns momentos bem divertidos!
      - Foi o melhor "primeiro encontro" que j tive, comentou Ronny.
      Em seguida, ele olhou para um lado e outro para ver se algum estava escutando e perguntou:
      - Posso lhe revelar um segredo?
      - Claro!
      - Foi meu primeiro encontro mesmo. Nunca tinha tido outro antes.
      - T brincando? Foi o meu tambm, disse ela, comeando a rir.
      Ronny tambm riu.
      - Assim o segundo vai ser bem mais fcil, disse ele. Ainda pretendo lev-la ao cinema, viu? Talvez no prximo final de semana.
      - Tudo bem. Vai ser timo!
      - 'T bom. Boa noite, ento, disse Ronny, dando aquele seu sorriso meio torto.
      Ela ergueu a mo e deu um leve aceno.
      - Segunda-feira a gente se v na escola! disse.
      O rapaz saiu e Selena fechou a porta devagar. Em seguida encaminhou-se para a cozinha.
      - E a? Ele a beijou? quis saber Wesley.
      - Claro que no! Somos apenas amigos. E quer saber de uma coisa? Ronny disse que foi o primeiro encontro dele tambm.
      - Parece que ele se divertiu bem, comentou a me. Isto , depois que se recuperou do choque da confuso que arru mamos no incio.
      - Obrigada, gente, por terem ficado comigo no meu encontro, disse a garota.
      - De nada, replicou o pai. Podemos repetir quando voc quiser.
      E virando-se para Tnia, continuou:
      - E agora? Foi melhor que seu encontro desastrado com Martin, o marciano?
      - Depende, replicou a moa.
      - Depende de qu?
      - Vamos ver se Ronny vai convidar Selena para sair de novo. Isso vai ser o grande teste.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

Captulo Dezenove

      Selena demorou muito para dormir naquela noi te. Tivera a impresso de que iria ficar pensando em Ronny, que ele era um rapaz muito legal e que aquelas horas 
que passara ali tinham sido maravilhosas. Na realidade, porm, ficou pensando foi em Paul, imaginando como seria se ele um dia viesse visit-la e comesse uma pizza 
com a famlia. Como ser que ele se sairia no joguinho Trivial Pursuit? Ser que saberia o segundo nome de Elvis Presley?
      Chutou o cobertor e virou de lado. Ah, mas que importncia tem isso? Por que estou pensando nele? A carta que escrevi para ele assustaria qualquer um. Como 
 que fui escrever tudo aquilo? Lembrou-se de como conclura a carta. Primeiro o criticara por haver colocado a palavra sinceramente, sendo que ela sabia que ele 
no estava sendo sincero nada. Em seguida, encerrara com a palavra "Irritadamente", Ou fora "Muito irritada"? No; dissera "Irritadamente". Por que fizera isso?
      Com um gemido de impacincia, virou-se de novo, deitou de costas e ficou olhando para o teto s escuras. Recordou-se do que escrevera em seu dirio acerca 
de pedir perdo e dizer "Obrigada!". Lembrou-se de que anotara que era sensato comear a fazer isso ainda jovem. Teve vontade de pedir perdo a Paul. No importava 
se depois ele achasse que ela era infantil e boba. Era melhor do que estar sempre pensando nas palavras impulsivas que escrevera e pusera no correio precipitadamente.
      Selena recordou-se de algo que sua av lhe dissera no ano anterior. Ela mencionara que sempre que tinha de tomar alguma deciso importante ou que algo a incomodava, 
"enterrava" a questo durante trs dias. No terceiro dia, se o problema ainda estivesse vivo, era porque Deus o havia ressuscitado.
      Naquela poca, Selena no entendera muito bem o que V May quisera dizer com aquilo e achara que ela no estava falando "coisa com coisa". Agora, porm, compreendia 
perfeitamente. Se tivesse "enterrado" a carta no momento em que a escrevera e voltasse a l-la trs dias depois, j teria se acalmado e poderia raciocinar com mais 
clareza. Agiria assim da prxima vez. Contudo, no momento, precisava pedir desculpas ao Paul.
      Em meio ao silncio do quarto, Selena se ps a fazer planos. Amanh  tarde iria escrever ao Paul, pedindo desculpas pela carta anterior. Depois telefonaria 
para Katie e Cris para dizer-lhes que o pai j fizera a reserva de sua passagem.
      Sentiu-se bem mais tranqila e, quando ia comeando a pegar no sono, recordou-se do versculo de Isaas que lera dias atrs. "Com minha alma te desejei de 
noite."
      Era a frase mais romntica que uma pessoa poderia dizer a outra. Ento sussurrou-a para Deus.
      "Jesus, com minha alma te desejei de noite. O senhor fica impaciente comigo por eu fazer tanta coisa errada? s vezes fao o que  certo. Como hoje. Esse meu 
'primeiro encontro' foi maravilhoso. Agradeo-te porque tudo saiu do jeito como saiu. Obrigada por minha famlia."
      Lembrou-se novamente da questo de agradecer e pedir perdo. Tinha a impresso de que em sua relao com Deus - alis, no seu relacionamento com todo mundo 
- as palavras que mais dizia eram estas: "Perdoe-me!" e "Obrigada!" Entendeu que se sentiria muito melhor depois que escrevesse a Paul pedindo perdo.
      De repente arregalou os olhos.  que se lembrou de que amassara a primeira carta de Paul e a jogara fora. Agora arrependia-se de ter feito isso. Mais uma vez 
percebeu a importncia daquele princpio de "enterrar" as questes e deixar passar trs dias. Teria sido muito bom se o tivesse aplicado nesse caso.
      De manh, quando se aprontava para ir para a igreja, sua me bateu  porta do quarto.
      - Posso entrar, Selena?
      - Claro!
      - Liguei para o hospital para saber notcia de V May, e sabe o que aconteceu? O mdico estava no quarto dela e disse que ela pode voltar pra casa agora de 
manh. Voc pode ir l comigo para busc-la? Ele quer que a gente v l imediatamente para nos dar algumas instrues.
      - Posso ir com a senhora sim, me. Espere s um pouquinho. J estou quase pronta.
      O pai e os outros membros da famlia foram visitar a igreja de Vancouver, de que Tnia gostara. A me e Selena foram ao hospital.
      - Estou aliviada de trazer V May para casa, disse a me. Sei que no comeo vamos ter muito trabalho, mas ainda bem que posso contar com voc e Tnia para 
me ajudarem. V May est com o p esquerdo engessado, mas creio que eles vo nos dar uma bengala especial. Assim ela vai poder subir a escada, com nossa ajuda, claro. 
Acho que ela vai gostar de voltar e ficar no prprio quarto.
      Quando chegaram ao hospital, o mdico j as esperava com as instrues escritas. Numa folha, estavam as informaes de como se deve lidar com uma pessoa que 
sofreu uma fratura. Em outra, havia orientao sobre o tratamento de um paciente que operou de vescula. Selena pensou que seria bom se houvesse outra srie de instrues 
sobre como cuidar de um idoso que est tendo falhas de memria.
      - Como  que a senhora est, vov? indagou Selena, inclinando-se e dando-lhe um beijo no rosto. O mdico j lhe disse que a senhora vai para casa hoje? A alta 
saiu mais cedo do que imaginvamos, no ? Parece que a senhora est passando muito bem!
      V May sorriu e disse:
      - Existem muito poucos iguais a ele. No o perca, viu?
      Selena deduziu que ela se referia ao mdico que se encontrava ao lado delas. Era verdade que a av gostava muito do Dr. Utley, o cirurgio que a operara e 
que ainda estava de frias. Tnia no tivera boa impresso do mdico que agora cuidava dela, mas, ao que parecia, V May gostara dele. Era isso ou ento ela estava 
variando de novo.
      - Vamos mandar uma cadeira de rodas aqui para o quarto, disse o mdico, no momento em que a me de Selena assinava alguns papis.
      Uma enfermeira que estava por perto comentou:
      - Talvez vocs precisem ir at o carro primeiro para levar todas estas flores.
      - Eu levo! disse Selena. Creio que com umas duas viagens consigo levar todas.
      Pegou o buqu que se achava mais perto e leu o carto. Era de uma vizinha de V May. Leu outro. Era do pessoal da farmcia Eaton's. Os amigos da igreja haviam 
mandado uma plantinha. Selena tentou pegar os dois buqus e um vaso. Segurando-os com firmeza, foi at o carro e s ento descobriu que estava trancado.
      Voltou ao quarto, pegou a chave e levou mais algumas flores. Colocou todas as flores no banco de trs. Sobrou apenas um pequeno espao para ela se sentar.
      Voltou correndo ao quarto, pensando em como seria bom V May estar de volta em casa. Fora timo que a cirurgia correra bem. Apesar do p quebrado e dos lapsos 
de memria, felizmente estava viva.
      Lembrou-se da ocasio em que conhecera Paul. O rapaz estava voltando da Esccia, aonde fora assistir ao enterro de seu av. Eles haviam conversado sobre o 
assunto. Ambos eram muito ligados aos avs. Selena sempre considerara V May uma boa amiga, alm de av. Paul entendera isso perfeitamente.
      Por que estou pensando em Paul? Tenho de parar com isso e seguir em frente. Tenho outros amigos em quem posso pensar: Ronny, Amy e Vicki; e talvez Tnia tambm, 
em algumas situaes.
      Recordou-se de que havia convidado a irm para ir com ela  Califrnia, durante o recesso da Pscoa. Ainda no sabia direito por que fizera isso. Tnia no 
mencionara o assunto de novo, e Selena tambm decidiu no falar nada. Era provvel que a outra at j tivesse se esquecido do fato. O certo era que da a duas semanas 
Selena estaria de partida para visitar suas queridas amigas.
      At l, iria procurar a companhia dos outros colegas na hora do lanche. Talvez fosse ao cinema com Ronny no prximo final de semana. Iria servir muitos pezinhos 
de canela no trabalho, ajudar a cuidar da amada V May e escrever aquela carta pedindo perdo.
      Quando entrou de volta no quarto, V May j estava sentada na cadeira de rodas e seu rosto brilhava de felicidade.
      - Falta s mais uma flor, queridinha! Quero levar todos os meus lrios para casa. Aquele rapaz foi to gentil! Sharon, ele ficou comigo um tempo depois que 
voc foi embora ontem!
      - Que bom! exclamou a me, pegando os outros objetos pessoais de V May.
      Selena viu um pequeno vaso branco, com um lrio s, na bandeja do caf da manh. No o vira antes. Parecia que era apenas um enfeite que viera com a refeio. 
Imaginou que talvez algum do prprio hospital o colocara ali. Era possvel que o rapaz a quem a av se referia fosse um dos "voluntrios" que faziam visitas aos 
doentes. Aparentemente ele gostara de V May e ficara a conversar com ela durante algum tempo. E fora no mesmo instante em que a famlia de Selena estava jogando 
"Trivial Pursuit".
      - Podemos ir? indagou a me, comeando a empurrar a cadeira em direo  porta.
      V May virou-se para o mdico e estendeu-lhe a mo. Ele correpondeu ao cumprimento e a av segurou a mo dele por alguns instantes.
      - Muito obrigada! disse ela amavelmente.
      Em seguida, agradeceu a cada uma das enfermeiras que vieram se despedir dela. Selena pegou o vasinho com o lrio e foi caminhando corredor abaixo, seguindo 
o grupo.
      - , V May, parece que a senhora ficou muito conhecida aqui, disse Selena, no momento em que passavam pelo posto das enfermeiras e duas delas se levantaram, 
acenando para ela.
      - , V May, sei no! continuou ela brincando. A senhora, hein! Faz amizade com todo mundo em todo lugar aonde vai. Depois um homem desconhecido lhe traz flores 
de noite...
      Nesse momento, enquanto o pequeno grupo seguia pelo corredor, ela encostou o dedo no carto que estava junto com o vaso de flores. Olhou para ele e ficou paralisada. 
Viu uma letra grande que conhecia bem, uma mistura de manuscrito e letra de forma. No carto havia apenas duas palavras:
      Sinceramente, Paul.
      
      Fim
* Bungee jumping: um esporte moderno em que o praticante salta de um ponto elevado, amarrado a uma corda elstica. (N. da T.)
* Nos Estados Unidos, devido ao inverno rigoroso, as lojas ficam com as, portas fechadas. Para indicar que esto funcionando, colocam uma placa a com a palavra Open 
(Aberto). No outro lado da placa, h o aviso Closed (Fechado), que deixam  vista ao fim do expediente. (N. da T.)
* Trivial Pursuit: um joguinho de mesa semelhante ao nosso "Master" (N. da T.)
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